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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

Zarpa... que incomoda...

 

 

Foto da World Press Photo Contest

 

 

ZARPA… QUE INCOMODA!

(Rogério Martins Simões)

 

O que pensas quando estás só?

Que notícias trazem de ti as horas?

Por que suspendes os minutos

e desprezas os segundos?

 

Secundaram a tua imagem

numa versão de cárcere.

Que sabem de ti os amigos?

Que dúvidas escorrem

nos confins da tua mente?

- Mentias se falasses!

Por isso nada dizes

e o silêncio incomoda.

 

Morrias se ouvisses um grito!

Chorarias

se escutasses uma criança!

Que criança tem o teu coração?

Ainda, assim, escutas

o teu próprio silêncio.

Resta-te um velho cão…

 

 

Continuas só

escutando nada!?

Lá fora uma multidão,

danada,

apedreja um ladrão…

À luz de uma velha cidade

florescem cimentos

e as gentes passam por edifícios

construídos nos penhascos dos lucros…

Parecem feras enjauladas

que se soltam

e percorrem, na rotina,

o caminho contrário.

 

Contrariamente à sorte

não se fala na mesma língua…

O regresso é o inverso e o verso

de uma partida desesperada…

 

A todo o tempo se remexe

em papéis,

em contas,

e se contam os tostões

para pagar as dívidas!

 

Que dívida tens para com a sorte

em teres nascido?

 

Zarpa que incomoda!

Resta-te um velho cão…

 

 

 

 

 

Andam aos tiros nas ruas.

Apontam as espingardas

às casas vazias.

Vivem agora nos fundos…

a fugir às bombas.

Não oiço nada cá em baixo!

Não oiço nada cá em cima!

 

O hospital tresanda

a fétida melena

de sangue cozido pelo sol.

O sol não nasceu para todos!

Estendem-se redes,

pelos telhados,

para aprisionar a luz.

 

Falta-me a lucidez!

 

Zarpa que incomoda!

Resta-me um velho cão…

 

 

O cão sacode a pulga.

E a pulga regressa ao homem

de onde nunca deveria ter saído.

 

Na barraca, de tabique,

há sempre correntes de ar

e cheiros pestilentos

das canseiras.

 

No bidão

improvisa-se um lavatório.

Emprenha-se um buraco…

que faz de latrina…

 

Ao lado, prego com prego,

cheira a catinga.

E uma velha mulher

canta

uma desconhecida

canção de embalar.

 

Todas as manhãs

são escurecidas

com excrementos escorridos….

Cheira a merda!

 

Zarpa que incomoda…

Resta-me um velho cão…

 

Hoje não penso

nas quatro paredes

que me cercam.

Corri meus olhos numa cotovia

Que voava apressada...

 

Bateram à porta.

Foi engano!

Lá fora, nas cartilagens da agonia,

há tanta luta!

 

Movimento as minhas mãos

E conforto o velho cão

Que não se mexe.

Sucumbia a uma lambidela...

 

Zarpa que incomoda…

 

Que sorte

ter um cão por amigo…

 

Lisboa, 31/08/2006

 (Registado no Ministério da Cultura

Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.C.

Processo n.º 2079/09)

 

publicado por poetaromasi às 18:46
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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