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Domingo, 4 de Setembro de 2011

Memórias dos meus 16 anos de idade - A morte de um amigo

S.Vicente de Fora

 

Memórias dos meus 16 anos de idade

Rogério Martins Simões

 

 

Já passaram 46 anos?! Que tragédia! Que trauma o foi para todos nós, jovens da mesma idade, amigos inseparáveis, acólitos e catequistas na Igreja de S. Vicente de Fora.

Eu ia ao seu lado!

 

 

Nascemos no mesmo ano, eu a 5 de Julho, e o Hernâni (NÃ) a 29 de Setembro de 1949. À data dos acontecimentos tinha completado os meus 16 anos de idade e recordo que nos preparávamos para a grande festa dos 16 anos do Nã.

 

Recordar esta tragédia é lembrar um dos acontecimentos mais traumatizantes da minha vida e da vida daqueles que presenciaram, incrédulos, o que ali estava a acontecer. Sim, mesmo ao nosso lado.

 

Regressávamos de mais uma viagem na camioneta do Patronato. Todo o dia fora divertido, porque, nesse tempo, contentavam-nos com pouco – os nossos pais não tinham viatura, e ir numa excursão à praia das Maças; ao Guincho, a Vila Viçosa, ou a outro local programado, era sempre um motivo para nos fazer felizes. Tudo correra com normalidade e lá estávamos nós amontoados ao fundo da camioneta. Muito cantámos, mas o artista era o Hernâni.

 

Recordo o momento em que a camioneta chegou ao campo de Santa Clara, local onde se faz a feira da ladra.

Lembro-me da viatura começar a entrar por aquele estreito e maldito portão.

 

Recordo-me de ver os putos pendurados no estribo da camioneta, ali mesmo ao nosso lado, na sua parte traseira.

 

 

 

(FEIRA DA LADRA)

 

REAL BORDALO

 

Ainda estou a ver o Nã a gesticular para os garotos e a pedir-lhes para que fugissem; para que não ficassem entalados entre a camioneta e o portão que dá acesso à parte inferior do antigo Mosteiro de S. Vicente de Fora.

Recordo o momento em que o Hernâni colocou a cabeça de fora tentando com o braço a afastar os putos. A camioneta a entrar lentamente, uma eternidade, arrastando e esmagando a cabeça do Hernâni contra o portão de ferro.

 

De o ver cair a meu lado o corpo do Hernâni, jorrando sangue.

 

Vejo-me a chorar e a correr para a Igreja a rezar e a passar em revista os tempos felizes que vivemos e o dia em que nos conhecemos:

 

“Desde menino, quando apenas conhecia os anjos, já escutava na telefonia a bela voz da Amália. A Minha mãe lavava a roupa no tanque, num saguão de uma casa na freguesia de S. Vicente de Fora, e cantava desconhecidas cantigas da Beira Serra.

 

Fui crescendo e um dia, no início dos anos 60 do século passado, descobri por acaso os caminhos que me conduziram, durante muitos anos, à Igreja de S. Vicente de Fora.

 

A luta pela vida era tremenda! Levantavam-se pelas 4 horas da manhã, apanhavam o elétrico que os levava à Praça da Ribeira onde se abasteciam de legumes com que governavam a vida no mercado de Santa Clara. Pela primeira vez entrei nos claustros do Mosteiro de S. Vicente de Fora.

 

Andava eu pelos claustros do Mosteiro quando, em cima da hora das cerimónias de posse do novo pároco, faltou à chamada um menino do coro! Mas… o Padre Cunha fazia questão em ter doze rapazes! Doze eram os Apóstolos e ele só tinha 11.

Tudo tinha sido verdadeiramente programado, ensaiado ao mais pequeno detalhe: os mais pequenos à frente! Tudo em carreirinha, em duas filas! – Túnicas novas feitas por medida! Sobrava uma! Era grande - como ela tivesse sido feita de propósito para mim!

 

Pois bem! Não é que fui pescado quando por ali andava perdido…

 

Vestiram-me uma túnica branca.

Cingiram-me com um cordão vermelho.

 

Em poucos minutos ali estava eu, menino do coro repescado, a caminho do Altar, lado a lado com o meu bom e saudoso amigo, Hernâni Anunciação Santos”

 

 

 

 

(à porta da Igreja de S. Vicente de Fora - Anos 60

 

 

Volto aos acontecimentos desse trágico dia:

Entrei na Igreja em convulsão. Ajoelhei-me e pedi a Cristo e aos santos para salvarem o Nã – e ELES não me quiseram ouvir…

 

A partir daí deixámos de escutar o seu belo canto no átrio da Igreja de S. Vicente de Fora.

Não mais esqueci aquela tragédia – Tinha então 16 anos de idade. Talvez por isso, quando nos juntamos, todos cantamos a mesma canção. Assim, e enquanto houver memória, haveremos de cantar, recordando-o, a sua canção: “A FONTE DA MINHA ALDEIA”

 

“ A fonte da minha aldeia

Quando soluça baixinho

Parece até que rodeia

A poeira do Caminho.”

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Eterna saudade, do teu eterno amigo,

Rogério Martins Simões

 

 

 

 

 

publicado por poetaromasi às 22:48
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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