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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

DIÁSPORA

DIÁSPORA

Rogério Martins Simões

 

Gosto de viajar para casa.

Regressar é um desejo de quem parte

e não quer ir.

Vou!

Já fui tantas vezes na aventura

calcetando pedras,

dormitando em tábuas,

onde me perco sem contemplações,

encalhando nos confins das terras,

amealhando uns tostões.

 

Tivesse asas para acompanhar o pensamento

porque as asas só se levantam tendo penas.

Penas tenho!

Pena não tenho!

- Da fome e dos xailes pretos…

 

Deixei em casa corpos em metamorfose,

silêncios e silvas,

que crescem entre muros e dão amoras…

Comprei a última tesoura de podar

Tenho a barriga a dar horas

E um sonho para voltar...

 

A vinha ficou brava…

A casa fechada, e a horta,

são agora um pasto de chamas.

- Aldeia porque me chamas filho

se só tive madrasta!?

- Nação porque me pedes o voto

se já nem te sei ler!?

 

Gosto de regressar mas não posso ficar…

Falo agora esta meia língua estranha,

porque já esqueci a minha…

Volto a percorrer as estradas

que me afastam do que resta...

Levo uns trocos para a viagem

e quando me virem vai ser cá uma

festa….

Vou petiscar couratos

e beberei uns copos

com os rapazes do meu tempo.

Regressarei um dia para cuidar da

vinha…

Por agora durmo a sesta…

 

Voltarei para cumprir a promessa…

E beberei nos corpos deixados

um néctar guardado,

entre fragas e pinheiros…

 

Verberarei palavras de fel,

embrulhadas com cargas de explosivos,

abrindo estradas;

Caminhos que me deixaram partir.

 

Agora tenho de ir…

Regressarei à casa nova que construí

e em cada degrau

limparei as lágrimas definitivas

da minha saudade.

 

Vou partir mas quero regressar…

Oh Pátria amada,

onde se acolhem os sonhos do meu regresso:

- Porque me deixaste partir?

 

Oh Pátria amada deixa-me regressar

ainda que só te enxergue,

no que resta,

dos penhascos e das pedras pretas.

 

Quero todo o barro, granito ou lousa

Quero a água cristalina que emergia das

fragas.

Quero depositar uma coroa de rosas

nas campas rasas dos meus pais.

E uma coroa de espinhos nos despojos

dos que me obrigaram a seguir…

 

Sonhei voltar!

Não voltarei para partir…

Não voltarei a sonhar.

Vou ficar!

Tenho filhos e netos neste lugar

 

Retalha a saudade

no que resta do meu corpo!

Viajarei gavião….

 

Por agora recebo notícias do meu país

- Dizem que as motas todo-o-terreno

debutaram nas silvas da minha aldeia…

 

E se a língua portuguesa é a minha raiz

profunda,

afundo as minhas mágoas por não poder

regressar,

Por que, agora, regresso escreve-se

noutra língua

e já nem sei o caminho de retorno..

8/03/2007

 

(Registado no Ministério da Cultura

- Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.P. –

Processo n.º 2079/09)

 

 

publicado por poetaromasi às 18:54
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Comentários:
De carlos pereira a 18 de Novembro de 2011 às 23:56

Só me ocorre uma palavra para definir este POEMA; GRANDIOSO.
Abraço, meu caro amigo POETA Rogério.

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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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