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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

As coisas são a matéria para os meus sonhos...

 

 

“As coisas são a matéria para os meus sonhos; por isso aplico uma

atençao distraidamente sobreatenta a certos detalhes do Exterior.

 

Para dar relevo aos meus sonhos preciso conhecer como é que as paisagens

reais e as personagens da vida nos aparecem relevadas. Porque a visão do

sonhador não é como a visão do que vê as coisas. No sonho, não há o

assentar da vista sobre o importante e o inimportante de um objecto que

há na realidade. Só o importante é que o sonhador vê. A realidade

verdadeira dum objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo

que ele paga à matéria em troca de existir no espaço. Semelhantemente,

não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são

palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um

poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os

seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, ver a vida

imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máquina do devaneio,

sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm

acção, dando negro na chapa espiritual.

 

Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enquistou, faz-me ver sempre

da realidade a parte que é sonho. A minha visão das coisas suprime

sempre nelas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre

em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou

para um poente no Exterior é para mim a mesma coisa, porque vejo da

mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.

 

Por isso a ideia que faço de mim é uma ideia que a muitos parecerá

errada. De certo modo é errada. Mas eu sonho-me a mim próprio e de mim

escolho o que é sonhável, compondo-me e recompondo-me de todas as

maneiras até estar bem perante o que exijo do que sou e não sou. Às

vezes o melhor modo de ver um objecto é anulá-lo; mas ele subsiste, não

sei explicar como, feito de matéria de negação e anulamento; assim faço

a grandes espaços reais do meu ser, que, suprimidos no meu quadro de

mim, me transfiguram para a minha realidade.

 

Como então me não engano sobre os meus íntimos processos de ilusão de

mim? Porque o processo que arranca para uma realidade mais que real um

aspecto do mundo ou uma figura de sonho, arranca também para mais que

real uma emoção ou um pensamento; despe-o portanto de todo o apetrecho

de nobre ou puro quando, o que quase sempre acontece, o não é.

Repare-se que a minha objectividade é absoluta, a mais absoluta de

todas. Eu crio o objeto”

 

 

(Do livro do desassossego Bernardino Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa)

 

publicado por poetaromasi às 17:24
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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