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Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

AS CIDADES SÃO ARMADURAS… FATIGADAS E FORJADAS... EM LÍNGUAS, MITOS E RITOS... COMBINADAS DE CIMENTO E TIJOLO.

Parte 1 a 4

 

 

 

AS CIDADES SÃO ARMADURAS… FATIGADAS E FORJADAS... EM LÍNGUAS, MITOS E RITOS... COMBINADAS DE CIMENTO E TIJOLO.

Rogério Martins Simões

(Tomo 1)

 

As cidades são armaduras

 

As cidades são avenidas seguras

A cidade é a minha rua também

As ruas por onde andava são inseguras

Já lá não mora ninguém

Mas numa rua nasci

A minha rua era a cidade

Na minha cidade cresci

E agora com mais idade

Voltei trazendo a saudade

À rua onde ainda não morri

 

As cidades são armaduras

Fatigadas e forjadas

Em línguas, mitos e ritos

Combinadas de cimento e tijolo.

 

A minha rua tinha um casario

Numa dessas casas nasci

Da casa espreitava o rio

E o rio era o meu navio

Para onde aprendi a espreitar

E só tinha os olhos no mar

 

Por isso da minha casa espreitava

Olhava através dum postigo

No dias em que o vento açoitava

Tudo à frente levava

Colocando a barra em perigo

E para o navio não encalhar

Quatro vezes viravam

Duas vezes para o mar

As proas destes navios

E até o guindaste parava

Não descarregando mais nada

No cais da minha cidade

Onde muito perto morava,

De onde tudo isto espreitava

E mais por agora não vos digo

 

(Tomo2)

 

FATIGADAS E FORJADAS

 

 

Nas traseiras da minha casa

Existia um saguão

Onde as mulheres à tarde lavavam

com muita água e sabão

As roupas que todos sujavam

E tudo era lavado à mão.

 

E até o velho tanque sorria

Àquelas mulheres tão novas

Por isso me recordo agora

Das partidas que elas faziam

Das bolas de sabão que subiam

Da ponta do meu canudo

E até minha mãe cantava

Uma cantiga das beiras

Apesar de muito cansada

De tanto trabalho na praça

 

E todas muito se riam

Até diziam asneiras

E antes chegassem os homens

Passavam de lavadeiras

A criadas de servir

E quando o meu pai regressava

A minha mãe com seu ar de graça

À frente da garotada

Fazia sempre chalaça.

E nem havia tempo para carpir

Que a janta estava pronta

 

(TOMO 3)

 

EM LÍNGUAS, MITOS E RITOS

 

Agarradas aos frontais

As varandas da minha rua

Mais pareciam estendais

Em todas as sacadas havia

Roupas dependuradas

Que escorriam para a rua

 

Tinham sido bem torcidas

Tinham sido bem espremidas

Mas uma vez um careca

Que olhava para a lua

Levou com uma encharcada cueca

No alto da nuca

 

E alguém chama um polícia

Logo o polícia autua

E foi um reboliço

Juntou-se uma multidão num buliço

Entre os quais um castiço

Que no meio da confusão

Rouba ao merceeiro o chouriço

E chama de careca ao lesado

 

E o polícia que não se faz rogado

Pega no cassetete e bate

Num inocente que passava

 

E salta a peruca…

A malta estava maluca

Ouviu-se a sirene da “Ramona”

E antes que os levassem p´ro Torel

Partiram numa “fona”

Fica apenas o móbil do crime

Que esta história de cordel

Por agora não acaba aqui

 

(TOMO 4)

COMBINADAS DE CIMENTO E TIJOLO.

 

E ao Domingo descansavam

Mas era dia de missa

Ordeiramente preparavam

Uma banheira de zinco

Duas panelas de água quente

Uma barra de sabão azul

Toalhas e um pente.

 

E assim começava a barrela

Os putos iam primeiro

Na mesma água do banho

Que ainda não ganhara cheiro

E mais parecia amarela

Depois de limparem o ranho

E quando ficava castanha

Era despejada para o ralo

 

Estava a ficar tarde para a missa

E antes que viesse a preguiça

Ordeiramente recomeçava

Voltavam as panelas

A água morna no zinco

E os corpos que transpiravam

Ficavam todos num brinco.

 

Agora na minha cidade

Não lavam mais roupa à mão

Nem o corpo em banheiras de zinco

Eu vi quando por lá passava

Que os passeios da minha rua

Estão agora presenteados

Com tanta merda de cão

E assim vai a minha cidade

Que os gatos da minha idade

Também só mijam no chão…

 

Da minha rua parte um caminho;

Um caminho que me conduz ao destino;

Que destino me traz o caminho;

Que me conduziu à minha rua…

 

As cidades são armaduras

Fatigadas e forjadas

Em línguas, mitos e ritos

Combinadas de cimento e tijolo.

 

26/09/2013 17:59:15

29/09/2013 01:39

Meco, 30-09-2013 23:19

( Este ensaio será incluído num próximo livro do autor)

 

publicado por poetaromasi às 23:52
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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