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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

ZARPA...QUE INCOMODA

 

 

 

ZARPA… QUE INCOMODA!
(Rogério Martins Simões)
 
 
O que pensas quando estás só?
Que notícias trazem de ti as horas?
Por que suspendes os minutos
e desprezas os segundos?
Secundaram a tua imagem
numa versão de cárcere.
 
Que sabem de ti os amigos?
Que dúvidas escorrem
nos confins da tua mente?
- Mentias se falasses!
Por isso nada dizes
e o silêncio incomoda.
 
Morrias se ouvisses um grito!
Chorarias
se escutasses uma criança!
Que criança tem o teu coração?
Ainda, assim, escutas
o teu próprio silêncio.
Resta-te um velho cão…
 
 
Continuas só,
escutando nada!?
Lá fora uma multidão,
danada,
apedreja um ladrão…
À luz de uma velha cidade
florescem cimentos
e as gentes passam por edifícios
construídos nos penhascos dos lucros…
Parecem feras enjauladas
que se soltam
e percorrem, na rotina,
o caminho contrário.
 
Contrariamente à sorte
não se fala na mesma língua…
O regresso é o inverso e o verso
de uma partida desesperada…
 
A todo o tempo se remexe
em papéis,
em contas,
e se contam os tostões
para pagar as dívidas!
 
Que dívida tens para com a sorte
em teres nascido?
 
Zarpa que incomoda!
Resta-te um velho cão…
 
 
Andam aos tiros nas ruas.
Apontam as espingardas
às casas vazias.
Vivem agora nos fundos…
a fugir às bombas.
Não oiço nada cá em baixo!
Não oiço nada cá em cima!
 
O hospital tresanda
a fétida melena
de sangue cozido pelo sol.
O sol não nasceu para todos!
Estendem-se redes,
pelos telhados,
para aprisionar a luz.
Falta-me a lucidez!
 
Zarpa que incomoda!
Resta-me um velho cão…
 
 
O cão sacode a pulga.
E a pulga regressa ao homem
de onde nunca deveria ter saído.
 
Na barraca, de tabique,
há sempre correntes de ar
e cheiros pestilentos
das canseiras.
 
No bidão
improvisa-se um lavatório.
Emprenha-se um buraco…
que faz de latrina…
 
Ao lado, prego com prego,
cheira a catinga.
E uma velha mulher
canta
uma desconhecida
canção de embalar.
 
Todas as manhãs
são escurecidas
com excrementos escorridos….
Cheira a merda!
 
Zarpa que incomoda…
Resta-me um velho cão…
 
Hoje não penso
nas quatro paredes
que me cercam.
Corri meus olhos numa cotovia
Que voava apressada...
 
Bateram à porta.
Foi engano!
Lá fora, nas cartilagens da agonia,
há tanta luta!
 
Movimento as minhas mãos
E conforto o velho cão
Que não se mexe.
Sucumbia a uma lambidela...
 
Zarpa que incomoda…
Que sorte
ter um cão por amigo!
 
Lisboa, 31/08/2006

 



ano do poema: 2006 FAVORITO
Notas: Vampiros José Afonso
publicado por poetaromasi às 00:00
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Comentários:
De titas a 15 de Novembro de 2006 às 23:18
Bem.... volto para mais uma tentativa: o teu sistema de comentários não gosta de mim; vou sempre ter a um "no entry por falta de ID (?)".

Já te disse o quanto me encanta a tua poesia e o quanto te admiro. Mas cometi uma falha imperdoável. Não manifestei a devida admiração pelas belíssimas telas de tua mulher.

Também passei pelo blog do teu pai... e vim de lá em paz, mas com a lagrimita ao canto do olho....
De meialua a 15 de Novembro de 2006 às 10:40
Contente pela tua visita. Vim ler as novidades e deixar uma beijoka.
De Guilherme Carreiro a 10 de Novembro de 2006 às 17:39
Um blog de poesia, é sempre um blog bonito. Parabéns!
De Jeanete Ruaro a 10 de Novembro de 2006 às 16:48
Belo poema amigo Romasi. O regresso é o inverso e o verso
de uma partida desesperada…

Só estes dois versos já o valem de um todo. Lançamos uma Antologia poética com nossos blogueiros e está à disposição para aquisição no e-mail euzapn@uol.com.br
Abraços
De lumife a 8 de Novembro de 2006 às 01:01
Como nem sempre há possibilidades de visitar os amigos coloquei hoje um poema dedicado a todos os que considero como tal e a quem desejo tudo de bom.

Um abraço
De lumife a 30 de Agosto de 2007 às 11:19
Meu caro amigo de vez em quando faço umas ausências depois de "carregadas as baterias" retorno e levo dias a ler o já publicado nos diversos blogs.

O "BEJA" atribuiu um Certificado a este blog que tanto merece.

Abraço
De Anónimo a 7 de Março de 2009 às 18:13
Há que zarpar mesmo

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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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