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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

O BARBEIRO

 

(Todas estas fotografias foram cedidas pelo Sr. Padre Pedro da Pampilhosa da Serra)

 

O BARBEIRO

Maria.

Espero que ao receberes esta carta estejas bem que nós por cá vamos na graça de Deus.

Recebi a tua última carta onde me dizias palavras lindas, como só tu sabes dizer, e com ela vinha a senha para levantar o cabaz das mercearias que nos mandaste pela camioneta.

Já recebemos a encomenda, estava tudo bem, mas escusavas de te incomodar.

Aqui na terra tudo vai como no costume.

A cabra da Ti Rosário entrou na horta e foi dar cabo da vinha do tê pai.

Ouvimos dizer que o Ti Chico fugiu para França. Que raio é que deu ao homem que tinha aqui tanto mato para roçar.

O Zé do fundo do lugar, coitado, é que não teve a mesma sorte. A família dele está de luto! Morreu de uma bala ao atravessar a fronteira. Mas esse, coitado, não tinha aqui nada para comer. Agora que vai ser dos filhos dele. É assim! Temos de nos conformar…

Maria! Vieram-me contar, (aqui na terra há cá umas mexeriqueiras), que estás apaixonada e que até lhe escreveste, numa carta, umas sem vergonhas.

Vê lá que eu nem queria acreditar. A TI Aninhas, que é cá uma coscuvilheira, pediu ao primo que trabalha aí em Lisboa para descobrir se era verdade.

Sabes lá: o Ti Manel da estiva, que é um magano, roubou a carta ao teu namorado.

Maria - nem sabes a vergonha por que estamos a passar. Ainda se fosses um rapaz... mas logo uma menina tão bem educada que fez a comunhão e tudo

Aproveito para te mandar uma cópia da carta que o barbeiro copiou.

Vê lá se foste tu que a escreveste, pois quero desmentir o povo.

Desculpa a letra mas o Ti António barbeiro cortou-se na navalha.

Por hoje não tenho mais para te dizer. Espero a tua resposta na volta do correio.

Beijos da tua mãe

 

 

                      Estes desenhos da alma foram construídos a partir de um comentário que escrevi directamente a um texto, lindo de amor, que a amiga Maria do saudoso blog “Cumplicidades” escreveu.

 

 

Só por falta da sua autorização para transcrever o seu poema de amor escrito para a sua alma gémea, fez com que eu, narrador, não mostrasse o texto que o bom António “Barbeiro” copiou e que juntou à carta que foi remetida à Maria por sua mãe.
Ora vejam:
 
“Maria desculpa a letra e não ligues, tudo vai passar.
Ouvi dizer na Rádio Moscovo que a PIDE vai ser corrida pelos comunistas e que as mulheres irão votar.
Por favor queima a carta e manda-me um frasco de “Pitralon” que depois pago.
Este que se assina
António Barbeiro.
  
Mas a Maria já respondeu! E escreveu à sua mãe uma linda carta.
Afinal, porque estava na Cidade, não se preocupou com as “linguareiras”
 
Resposta da Maria na volta do correio
Mãe, Sim estou apaixonada. A carta que te chegou às mãos, minha querida mãe, fala de um amor imenso, puro e que me faz tão feliz. Por isso minha mãe te peço, fica feliz por a tua filha conhecer o amor, por a tua filha se viver em felicidade.
Sabes mãe, não conheço outra forma de viver que não através dele, e isso minha mãe, aprendi contigo. Por isso te peço, ignora o povo, e não sintas nunca vergonha. O amor não se vive dela. Nada do que consta nessa carta são sem vergonhas, minha mãe.
Lê, repara em cada palavra, em cada sentir que elas revelam, não é isso que é a vida minha mãe?
Não é assim que deveríamos todos viver, no amor? Acredito que se todos se vivessem nele, saberiam compreender, e com toda a certeza o mundo seria muito mais humano, estariam todos muito mais disponíveis para os outros. Não concordas? Não desmintas, mãe. Confirma que foi a tua filha que a escreveu. E não ligues à voz do povo, o importante não é que saibas que a tua filha, está bem? Da filha que te ama...
(Resposta escrita por Maria Branco, Blog Cumplicidades, a quem agradeço)
 
-Maria esqueceste o “Petralon” para a barba e que o Ti António Barbeiro pediu.
Mas o bom António quando a carta chegou já não a leu.
O narrador volta a chamar pelo poeta
 

P.S:

Aos Homens grandes

O António que escreveu as cartas à Maria era um homem notável: barbeiro de profissão; médico-enfermeiro nas horas vagas.

António foi buscar o saber aos velhos livros de medicina, e, porque era letrado - poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever - lia e escrevia as cartas do povo que não sabia ler nem escrever.

Mas o António “Barbeiro” gostava de ouvir!

 (Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!),

E mal tarde tardasse a noite, pé ante pé como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho e de novo sintonizava a Rádio Moscovo.

António era um homem prevenido.

À noite colocava por cima do rádio um copo de água e se, no silêncio das quatro paredes, a telefonia emitisse uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não se ouvir.

- Não viesse por ali algum “bufo” para o denunciar e agente da polícia política para o levar.

Mas o “Barbeiro” que sabia tanto procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam.

Foi assim que ouviu dizer, aos comunistas, que iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar

Talvez por isso, o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia abusivamente nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas.

Certa noite de intensa tempestade o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo!

Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!

(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)

À Maria Branco o meu agradecimento por completar este diálogo.

Rogério Simões.

(Homenagem póstuma ao Ti João Barbeiro da Póvoa, amigo de meu pai e que ainda conheci)

Poemas de amor e dor conteúdo da página
ano do poema: TEXTO POÉTICO - à Maria Branco
Notas: (O episódio do rádio não é ficção!)
publicado por poetaromasi às 23:49
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Comentários:
De Paula Raposo a 5 de Dezembro de 2006 às 11:30
Uma homenagem tão bonita! Gostei imenso de tudo o que li aqui. Obrigada por me deixares ler palavras e sentimentos tão belos! Beijos.

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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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