Este blog nasceu em 6 de Março de 2004

Mais de 3 milhões de visitas e 4 milhões de páginas visitadas- Obrigado



Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Percursos...

(Cópia 

Óleo sobre tela Elisabete Sombreireiro Palma)

 

 

 

PERCURSOS

Rogério Martins Simões

 

Andamos aos poucos

a escrever o livro das nossas vidas.

A libertação tem o seu preço,

pagamos caro a mudança,

sacudindo as roupa envelhecidas…

 

Que é feito dos vestidos de chita?

Onde estão os dedos finos delicados

que enrolavam os cabelos do menino?

E os caracóis? E as gotas

com que rebuçava o olhar de mel?

 

Tartarugas luzidias rastejam

recordando que já foram cágados…

Abro o saco e liberta-se

um louva-a-deus…

 

Manejo uma espada de madeira,

herói da banda desenhada.

Ergo a espada de nada

e faltam-me as sílabas

que se escaparam

das folhas arrancadas.

 

Ainda assim quero escrever,

quero borboletear faíscas

para não ficar cego…

 

As recordações são agora

monstros cospe-lume,

dragões afinados…

Cordas partidas de um violino.

 

Liberto as claves de sol

para de novo te ver sorrir!

 

Um canto adormecido

embala docemente

um berço de silêncio.

Recupero o leite materno

num figo verde,

lábios rasgados.

 

Chupo um rebuçado

com sabor a mentol.

 

A tinta permanente secou!

O mata-borrão

levou as pontas do meu nome

(bem desenhadas

para caber entre duas linhas.)

Entrelinho as palavras desalinhadas.

Não dou a mão à palmatória.

Quando tudo passar serei glória.

 

Por agora vou afinando

as cordas estropiadas,

velha amarra dum batel.

A espada é agora pó

e já foi serradura…

 

Os cabelos, caracóis finos,

afinaram os violinos

numa nuca envelhecida

e cantaram vitória…

 

Ainda assim a fogueira

não destruiu tudo

e o combate ao dragão

queima-tudo,

ainda agora começou.

 

O fumo das folhas

é agora nosso.

E os versos também…

 

26-02-2007 0:23:20

 

(Ao correr da pena, dedicado à poetisa

Maria Célia Silva)


Poemas de amor e dor conteúdo da página
ano do poema: 2007
publicado por poetaromasi às 00:05
link do post | ##COMENTAR## | favorito
 O que é? |  O que é?
Comentários:
De Anónimo a 27 de Fevereiro de 2007 às 12:56
Meu caro amigo Rogério: as saudades eram muitas e os Alentejanos voltam sempre ao torrão natal... Aqui, além duma "imposição" de amigos era também um desejo íntimo.

Irei, além de regressar ao "Beja", tentar manter os outros "sítios" que tenho criado.

Chegou a altura de receber da tua parte os prometidos poemas e as pinturas da minha patrícia para publicar no "Beja".

Um abraço amigo

De mariavaladas a 27 de Fevereiro de 2007 às 15:33
Senti-me embalada em tão bela prosa feita poema...
Que dedicatória mais linda que alguém podia receber!

Rogério...você é um poeta a 100%---

Ainda estou a meditar nas palavras que escreveu....

Beijos da
Maria
De poetaromasi a 28 de Fevereiro de 2007 às 14:29
Agradeço as palavras que me deixaram nesta prosa poética escrita num e-mail para a Célia e que quis compartilhar convosco. Só a POETISA Célia entenderá completamente o que escrevi. A Célia, para além de poetisa comprovada com o magnífico poema que escreveu, desenha, escreve contos e até teve vocação para canto lírico. Não posso nem devo dizer mais. Tudo está neste texto poético… O que eu não quero é que a sua poesia seja queimada por outros em estilo de auto-de-fé. Foi pela qualidade que abri este espaço à Célia, sem favor, tão só pelo mérito.
Quem me conhece sabe que nunca fui, sou, ou serei egoísta, invejoso ou vaidoso. Sou um homem do povo, um filho de gente simples, pobre mas muito rico em amor e partilha. Meu pai como não tinha sobremesa para nos dar dava poesia depois do jantar e foi com ela e com as palavras, acções e exemplo de vida, que me tornei no ser que sou hoje. No meu passado errei e aprendi com erros e defeitos e é por isso que de novo vos digo a Célia merece o nosso reconhecimento e o incentivo para continuar e há por aí tantas Célias…
Eu sempre disse que sou um humilde poeta – mas poeta; e sendo-o reconheço onde há poesia. Mais uma vez obrigado e acabemos de vez com estes orgulhos tolos, egoístas que impedem de dar passagem a quem tantas vezes é melhor que nós.
Rogério Martins Simões
De indeciso2 a 28 de Fevereiro de 2007 às 09:33
Um abraço, Rogério! Seilá.
De Paula Raposo a 28 de Fevereiro de 2007 às 18:30
Excelente. Como sempre Rogério. É um prazer e um privilégio ler-te. Beijos.
De M. Célia Silva a 20 de Março de 2007 às 12:28
Não sei se apanhou o meu comentário, porque isto "falhou" a meio.... apenas falava da minha gratidão e a minha comoção ao ler o poema dedicado a mim... foi um bálsamo nestes ultimos dias difíceis...
Sem mais palavras "Muito Obrigada"
Um abraço
De luso poemas a 17 de Maio de 2008 às 15:03
participe em www.luso-poemas.net

Comentar post

amrosaorvalho.gif

MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

Todos os poemas deste blog, assinados com pseudónimo de ROMASI ou Rogério Martins Simões, estão devidamente protegidos pelos direitos de autor e registados na Inspecção-Geral das Actividades Culturais IGAC - Palácio Foz- Praça dos Restauradores em Lisboa. (Processo 2079/2009). Solicita-se a quem os copiou alterando o nome, não respeitando o texto ou omitindo o seu autor que os apague ou os reponha na fórmula original com os respectivos créditos. Se apreciou algum destes poemas e deseje colocar em blog para fins não comerciais deverá colocar o poema completo, indicando a fonte. Obrigado

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados. All rights reserved