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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

25 de Abril



 

Crónica presente de Abril longínquo

(José Baião Santos)

Há na vida momentos que ficam para sempre inesquecíveis. Permanecem na memória por longos anos de forma inalterada, quase tão reais como a própria consciência do presente; ou como o reverso desse mundo ideal que construímos, aleatoriamente a cada impulso da poética trazida pela resistência quotidiana. Na narrativa dos acontecimentos confundem-se os factos com os sentimentos, fruto de um movimento de inversão do factor distância. Quanto maior é o afastamento no tempo, mais intensa e carnal é a recordação emotiva dos factos, é como se compensássemos a perda irremediável do passado, no rasto dos planetas, com a representação de um novo conto de fadas. Cada um desses momentos participa da nossa substância humana e religiosa.

Abril amanheceu com tonalidades de coragem. Bento ensaiava naquele dia, como vinha sendo hábito nos últimos três ou quatro anos, os passos iniciais do seu ritual matinal que o conduziriam ao seu emprego. Enfrentava a sua imagem no espelho com distraída indiferença. Era uma figura justaposta e de uma estranha familiaridade. Muitas vezes culpamo-nos, à beira da impiedade, pela inconsistência dos modelos que construímos para preenchimento dos buracos vazios da vida. A curta distância um aparelho de rádio emitia música marcial. Era uma aurora densa de mais para aquele tempo de primavera. O poder deveria ter enlouquecido de vez, pensou. Mas não, a voz de sua mãe, vinda da cozinha, a meio do corredor, exclamava entre perplexidade e medo (sentimentos que naqueles tempos sempre nos acompanhavam – e ainda hoje carregamos!): “Oh! Bento, deve estar a passar-se alguma coisa. Só estão a transmitir marchas militares no Rádio Clube! Não me digas que é algum golpe?!”. Aquelas palavras deixaram-no aturdido, paralisado, frente ao espelho grande da casa de banho onde a pouco e pouco se ia perdendo, na neblina do vapor de água, o seu rosto jovem, envolto de frondosos cabelos negros. “Não me digas que é algum golpe?!”. Ficaram os dois em silêncio, tão-só a escutar a emissão que naquela manhã, entre as sete e meia e as oito, parecia querer sublevar o povo, em defesa da pátria ameaçada. A espera valeu a pena.

“AQUI MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS… “. Havia nos seus olhos uma erupção de felicidade, abraçavam-se aos pulos pela casa. Estavam só os dois. Bento foi até à janela e gritou: “Abaixo o fascismo! Viva Portugal!”. Nas ruas do bairro poucos davam mostras de ter conhecimento que a tropa já ocupava, a essas horas, alguns postos chave para enfrentar as forças leais ao regime. Regime que viria a desmoronar-se às mãos de um punhado de capitães valorosos a que se juntou mais tarde a elite dos generais, à vista de um povo determinado, ingénuo e desejoso que invadia as praças e avenidas da capital.

Bento reuniu alguns dos seus correligionários das campanhas contra o marcelismo, entre os quais Joana, e aventuraram-se pelos caminhos da revolta popular contra a ditadura que nesses dias de Abril mudaram os protagonistas da história e revelaram a face oculta de um país mergulhado na profunda amargura da opressão violenta. Ao passarem por uma coluna militar Bento, ajudado pela multidão, subiu a uma chaimite e depôs no cano da espingarda de um soldado, o cravo vermelho que Joana lhe oferecera. Joana sorriu, pensando que o “POVO ainda é QUEM MAIS ORDENA”. Já à tarde no Largo do Carmo quando o Presidente do Conselho estava prestes a assinar simbolicamente o acto de rendição condicional, Bento e Joana, cansados mas felizes da jornada, encontravam-se no espaço público de uma livraria junto à Estrada de Benfica, em animada discussão sobre o desenrolar dos acontecimentos daquele dia, atentos, todos, às últimas notícias que chegavam pela rádio. E chegou, finalmente, o momento inesquecível por todos ansiado; o ditador, a esfinge do regime capitulava com a garantia do exílio e da entrega do poder aos generais. O Zeca comentou: “O mal disto tudo é que nós não vamos ter direito a nada!”. Ninguém moveu o olhar. Houve uma longa pausa, apenas cortada pelo ruído exterior do tráfico rodoviário.

Estou a lembrar-me de uma passagem do filme “Os Capitães de Abril”. Quando a coluna militar atravessava o arco da Rua Augusta um dos oficiais do exército que integrava o movimento revoltoso, disse que, depois de passados os instantes de liberdade e de euforia populares, o sistema se reorganizaria nos bastidores, numa nova ordem em proveito e sob as ordens dos detentores do poder. “Terás alegria ou terás poder (…); mas não terás as duas coisas.” afirmou Joana, tentando reproduzir de memória um trecho de um escritor americano que comentara meses antes durante uma aula do curso de filosofia.

Bento ainda recorda, hoje, esses dias vividos na esperança de um mundo igualitário e solidário. Ainda revive aquele minuto em que ergueu o cravo da vitória e em que Joana lhe sorriu num breve culminar de ilusões. Bento sempre soube que o poeta do povo não se enganava. O seu canto de fraternidade fez tremer os chacais, é verdade!, mas acabou por se perder o sentido dos versos que se imortalizaram “Dentro de ti ó cidade”. A flor das águas traz os corpos filhos da madrugada libertadora. A cidade é hoje um lugar superlotado, sujo, cruzamento de avidez e lucro, espaço multiracial desgovernado, sombra dos grandes ideais e nomenclatura do ridículo disfarce da burguesia decrépita.

Bento alisou os cabelos e saiu deixando atrás de si a emissão de rádio, num outro comprimento de onda.                  

                                                               José Baião Santos – Abril de 2007





 

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página
ano do poema: 1975 e 2007
Notas: José Afonso
publicado por poetaromasi às 01:17
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Comentários:
De Luso-Poemas a 25 de Abril de 2007 às 13:59
fantástico post poeta...
por favor participe em www.luso-poemas.net. é um cantinho de literatura onde todos podem mostrar o seu dom, conversar com artistas com o mesmo gosto, trocar ideias e assim contribuir para que a chama fantastica da nossa cultura se manhtenha em cada um de nós.

de uma visita e se quiser participar, seria uma honra para nos ter tremendo artista no nosso cantinho.
grande abraço. luso poemas

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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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