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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

AFASTAMENTO

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 (Nesta fotografia meu pai, minha prima e minha mãe)

AFASTAMENTO

 

O poema de hoje, AFASTAMENTO, foi escrito em 1974 quando nem sequer imaginava que um dia teria de colocar os meus pais num lar: No lar da Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra.

Entre as preocupações que me levaram a tomar esta dura decisão, mesmo com a anuência dos meus pais, estão os seguintes factos:

1º Desde Abril de 2016 meu pai, com 94 anos de idade, deu entrada na urgência do hospital de S. José por três vezes; No dia 1 de Abril foi-lhe diagnosticado a possível existência de um tumor no pâncreas que, até à data, não se confirmou;

2º Neste período esteve internado por 3 vezes num hospital de Lisboa com um quadro clínico grave;

3º Também minha mãe, com 91 anos de idade, nesse mesmo período de tempo, deu entrada pela mesma urgência com problemas respiratórios graves, um enfarte, e na última das vez esteve em coma quase 24horas. Para minha felicidade depois de tanto a acarinhar e lhe segredar ao ouvido, acordou… - Olha o meu querido filho Rogério!

4.º Entretanto, numa reunião, foi-me entregue um documento onde constava que meu pai seria admitido numa Unidade da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Unidade de média duração e reabilitação.

Pedi para ler o que ali estava escrito e recusei assinar em nome do meu pai tendo abandonado a reunião.

Essa recusa não era mera birra, era uma questão de direitos e liberdades dos doentes descritos no próprio impresso que li, tendo chamado a atenção para que fosse meu pai a decidir.

Recordei que meu pai detém todas as suas capacidades intelectuais e que nunca foi chamado para tomar qualquer posição sobre este seu assunto.

5.º Entretanto a minha mãe ficou à espera de ser integrada numa Unidade da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Unidade de longa duração e manutenção.

6.º Depois de lhes terem dado alta hospitalar vieram para a sua casa. Doentes e acamados, os dois, regressaram a um velho prédio que nem sequer tem elevador. Para uma velha casa sem um mínimo de qualidade onde todo o apoio era insuficiente e deficiente.

 

Foi assim que meu pai regressou à terra que o viu nascer, bem perto da aldeia de minha mãe – A Malhada – Colmeal.

 

Já no Lar da Santa Casa da Pampilhosa da Serra, constatei que existe ali muita humanidade, e muita doação, independentemente da qualidade e do profissionalismo dos seus mais de 40 trabalhadores.

Meus pais foram colocados no mesmo quarto e eu estava muito feliz com isso.

Entretanto chegou ao meu conhecimento que a minha mãe seria transferida para a Unidade de Longa Duração, ali perto, colocando em risco o seu Lugar no Lar bem como a alteração de comportamento de meu pai.

 

A minha maior tristeza foi por ter cedido… à colocação da minha mãe nos cuidados de saúde continuados de longa duração – seis meses - tendo desta forma contribuído para os separar. Meus pais não queriam ficar separados, viveram mais de 69 anos juntos e só a morte os poderia afastar.

 

Vou concluir. O que passámos nestes últimos 3 meses é inarrável, dói! Dói muito.

No meu caso e por muito mais que o faça, nunca conseguirei pagar o que os meus pais fizeram por mim. Mas foram tantos aqueles a quem meus pais abriram as suas portas, e cedido a própria cama, que chega a ser triste que nem uma só visita lhes faça.

 

E eu que ouvi e vi meu pai chorar, quando pela 3ª vez os fui ver à Pampilhosa da Serra, também chorei.

 

Lisboa, 27/07/2016 02:00:01

 

 

 

AFASTAMENTO

Rogério Martins Simões

 

Separaram nossos corpos, mulher,

Na idade em que preciso de ti!

 

Cresceram os nossos filhos

Cresceram, levou-os o vento,

Agora estamos sós:

Velhos do nosso tempo.

 

Apartaram nossas vidas

Em lares da terceira idade

Vivemos a longa distância

Indiferentes, por caridade…

 

Pareço namorar-te

Agora que bem te conheço.

Tenho-te no pensamento,

Longe de ti, não te esqueço.

 

 

Separaram nossos corpos, mulher,

Espero todos os dias por ti!

 

Se ao menos viesse o dia

Da nossa partida final,

Haveria mais alegria

No nosso amor imortal.

 

Juntos na mesma terra...

Tu e eu a recordar…

Os tempos em que lá na serra

Começámos a namorar.

 

Juntaram nossos corpos, mulher,

Às alfaces verdejantes…

 

10/1974

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publicado por poetaromasi às 22:49
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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