VIAGEM
Rogério Martins Simões
A maré está em maré baixa.
Para onde foi a água salgada
E o sal que me temperou?
Meu barco sulca
Pelas águas que ficam…
Por que ficam
As águas que não partem?
Quando partem
As águas que ficam?
A maré está calma…
As águas parecem quedar:
O barco desliza e faz ondas,
Nas águas calmas e mansas,
Sopra uma ligeira brisa
E o barco desliza…
Outro barco passa…
Já passou!
Por tempestades
Por dias de sol
Meu barco de contida graça
Semeia carneirinhos,
Branca espuma, no verde-mar.
Quantos marinheiros
Respiraram este ar?
Quantos pescadores
Lançaram redes?
Quantos mares
Acolheram estas águas?
Mágoas?
Meu barco abranda
Estava proibido de atracar
Nas palavras que pincelam
As cores deste náufrago
- O barco vai parar!
Grito ao arrais!
Estou finalmente a chegar
Ao fim destas palavras…
Olho as amarras
com que prendem o barco…
A maré continua vazia….
Há tanto lodo no cais...
(Diário de viagem, Seixal-Lisboa
13-08-2008 09:01:19
(Registado no Ministério da Cultura
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