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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Entrevista ao Jornal Serras da Pampilhosa da Serra (em 2008) 1ª parte

 

 

 

ROGÉRIO MARTINS SIMÕES

(O POETA ROMASI)

Um pampilhosense “alfacinha”, um “alfacinha das Serras da Pampilhosa

Rogério Martins Simões, o “Poeta Romasi”, nasceu em Lisboa, nasceu em Lisboa, na Freguesia do Socorro, no dia 5 de Julho de 1949, de uma família oriunda do concelho de Pampilhosa da Serra.

Casado em segundas núpcias com Elisabete Maria Sombreireiro Palma a musa inspiradora de tantos e tantos “Poemas de amor e dor”.

Tem 2 filhos, o Rogério Alexandre, nascido em 1970 e Ana Lúcia nascida em 1972. O neto Alexandre Filipe Simões Silva de 9 anos, como “romasi” diz, “é a luz da minha vida”.

Actualmente trabalha na Direcção Geral de Alfândegas onde é Reverificador Assessor Principal, mas em tempos idos já viveu numa espécie de clandestinidade ouvindo no “silêncio” Zeca Afonso entre outros.

Como ele diz, ”Gosto muito da Pampilhosa e das suas gentes e amo a minha querida Póvoa e as suas gentes, afinal quase todos parentes.”

Mas nada melhor para apresentar este serrano, que nos delicia com poemas que muitas vezes têm a cor dos segredos que ao longo das rimas nos desvenda, do que passar a palavra ao mestre, para que da própria “pena” saia tudo quanto queremos saber, desta alma que não pára.

“Na década de 50, 60, do século passado, as regiões mais pobres de Portugal começaram a ficar aos poucos abandonadas. A vida era dura, as condições para se viver nesses locais foi-se degradando e os povos emigraram para outros países onde a vida lhes poderia dar outras oportunidades.

Ao mesmo tempo, aqueles que não se aventuravam à diáspora, engrossavam a mão-de-obra com que se ergueram as cidades novas e redimensionaram as que existiam.

Naquele tempo visitava a aldeia do meu pai, dos meus avós, com a frequência das férias grandes, e convivia com muitos nascidos ou oriundos daquela aldeia.

Ao escrever este pequeno diálogo procuro testemunhar, colocando no tempo àqueles que o lêem, pese embora todas as dificuldades sentidas, todas as carências, nomeadamente a falta das vias de comunicação e tudo mais, nem um só momento do tempo que ali passei me senti infeliz.

Pelo contrário, fazia-me bem meter as mãos na terra, ajudar a regar as leiras, a debulhar o milho, a apanhar os cachos, a apanhar fetos para as camas dos coelhos, mato para as ovelhas e porcos, de recolher os ovos para os bolos da festa do 3 de Setembro.

É claro que ao interagir com os meninos nascidos e criados na aldeia significava que estava a colidir com os deveres desses meninos homens e, deste modo, sem querer, alimentava conflitos entre eles e seus pais. O meu trabalho era uma festa em vez de obrigação. O trabalho dos outros meninos era regra e assim encarado por eles com sacrifício.

Hoje resta a saudade de um tempo menino e jamais esquecerei as traquinices e os amigos que lá deixei - alguns dos quais já partiram.”

SERRAS – Porquê “Romasi” ?

ROMASI - ROMASI é um pseudónimo, aquele com que assinava a minha poesia e resulta da aglutinação das duas primeiras letras do meu nome.

SERRAS – Quem é o Rogério Simões?

ROMASI Tal como aprendi o meu nome, sem eu ter a consciência de que o estava a interiorizar, aprendi muita coisa quando eu tinha todo o tempo do mundo...

Nessa época os meus pais, mesmo sem vagar, eram de uma completa dedicação aos filhos. E os avós, quem os tinha, ensinavam aos meninos os contos mágicos, inscritos no “livro dos pensamentos”, que lhes tinham sido transmitidos oralmente pelos seus antepassados.

Há sempre tempo para tudo, digo eu, e na luz irradiante da família aprendi a amar e a ser amado; aprendi a respeitar e a ser respeitado; aprendi a ser feliz e a tentar contribuir para a felicidade do outro; aprendi a acatar e a escutar os mais velhos; aprendi a dar valor às pequenas coisas, e, como os meus pais davam tudo o que podiam e não podiam, aprendi a ser solidário.

Depois, ainda havia a minha madrinha. Era a irmã mais velha de meu pai, a Maria da Nazaré Simões, trabalhava nos Hospitais Civis de Lisboa - no Hospital de Arroios e como ela descobri que existiam seres humanos que sofriam. Mas como era menino, corria pelos claustros do hospital, brincava com os meninos doentes às escondidas enquanto a minha tia-madrinha atendia e tentava aligeirar o sofrimento dos doentes.

Como estava a dizer, eu tive verdadeiramente uma madrinha! E como madrinha substitui os pais, levava-me a visitar os acamados a quem emprestava o único rádio que tinha para lhes aliviar as dores.

Era assim: dava-me rebuçados (ficava todo lambuzado), aturava-me enquanto meus pais iam trabalhar e ensinava-me que até a dor pode ser aliviada escutando um belo fado da Amália...

“R” mais “o” é RO; “g” mais “é” GÉ; “r” mais “i” é RI mais “o” com o faz ROGÉRIO, assim me ensinava a escrever a minha professora primária, a Dona Susana, da “Escola Republicana de Fernão Botto Machado”.

Gosto do meu nome embora seja invulgar. Aprendi que dava jeito, pois, quando era chamado a exame, éramos ordenados por ordem alfabética, e havia mais algum tempo para estudar. Tinha os seus inconvenientes: estava sempre no fim da lista e de tanto esperar, desesperava, aproveitava para roer as unhas...

Há sempre tempo para tudo – digo eu.

Existiu um tempo para ser desejado - sem dar por isso! Um tempo para ser amado - sem dar por isso! Quando dei por isso tive, e ainda tenho felizmente, todo o amor e o carinho dos meus pais.

Vou parar por aqui. A minha ascendência é significativamente a razão da minha conduta, da minha decência, da minha consciência.

Tive e todos nós tivemos tempo para tudo…

Errei, levantei-me! Escutei sempre o coração! Empenhei sempre a alma controlada pela minha consciência. Voltei a errar e voltei a erguer-me aprendendo sempre com os meus próprios erros.

Reconheço os disparates que fiz! Todos os fazemos ao longo das nossas curtas vidas. Mas a minha glória está em reconhecer os meus defeitos, combatendo os meus erros, sublimando as minhas atitudes de comportamento que não se reviam ou revêem na herança do meu sangue e/ou na educação que recebi dos meus pais.

Rogério Simões é fruto de tudo isto e tem a humildade de um serrano! Porém, nunca serei um homem pequeno...pois nunca foi minha a intenção de o ser.

SERRAS – Quando e como surgiu a apetência pela poesia?

ROMASI - Comecei bem cedo a escrever poesia por “culpa” do meu querido pai, José Augusto Simões e com a cumplicidade de minha mãe que não sabia nem sabe escrever - mas isso são contas de outro rosário - pois às mulheres era quase negado o direito a estudar.

Dizia eu, ou estava para dizer, vivi numa humilde casa em Lisboa, paredes-meias com a “feira-da-ladra”, onde fui crescendo, escutando e observando…

Comecei por aprender que a poesia cresce com a alma e escreve-se com amor e isto ensinou-me o meu querido pai: José Augusto Simões, homem culto, simples, honesto, solidário, bom marido e bom pai.

Sobre o meu pai já escrevi o “insuficiente”, pois todas as palavras ou poemas não chegam para lhe dedicar.

Nasci em Julho de 1949 e nos anos 50 eu era ainda menino.

A casa de meus pais, nesse tempo, “fervilhava” de familiares e amigos que deixavam as suas aldeias, da Beira Baixa, em busca de uma vida melhor. Meu pai e a minha mãe recebiam-nos cedendo, mesmo, a sua própria cama. E foi assim até há poucos anos.

Dormia-se por tudo o que era canto - por turnos - pouca sorte partir, pouca sorte chegar…

Meu pai, pequeno comerciante de sacos usados, nada tinha e tudo dava. A minha mãe aceitava e dava tudo sem nada querer em troca.

À noite, mesa cheia - naquela mais humilde casa – ouvia contar ao meu pai as histórias de fantasia e de encantar da nossa aldeia, contos que preencheram o imaginário da minha infância. Depois vinha a sua poesia e a poesia dos grandes poetas tão bem declamada por meu pai a quem todos com prazer o escutavam.

Era assim: como não havia rendimentos para comprar e servir a sobremesa, meu pai, substituía-a por poesia!

Fui crescendo, (não vos quero maçar), para abreviar, iniciei-me na poesia pela caneta de meu pai. Eu - ou melhor o meu pai - ganhava todos os prémios de poesia nas escolas por onde andei.

Nos anos 60 do século passado escrevi, por minha mão, os meus primeiros poemas com a alma do meu pai e Já nesse tempo a minha poesia, a nascer, versava a vida com as cores do dia-a-dia.

Contava o que via, ou o que não deveria dizer, e o que via era triste – mas isso são contas de outro rosário em que tudo era proibido.

SERRAS – Acabou de falar nos que chegavam da Beira a casa dos seus pais.  Eram pessoas de Pampilhosa da Serra, e lembra-se de alguém em especial?

ROMASI – Um dia o Ti-António do Vale Serrão disse para o meu pai – José Augusto: És tu em Lisboa e eu lá na Póvoa - há sempre comida para mais um!

Tal como dizia o Ti-António do Vale Serrão, todos eram bem recebidos ou acolhidos e havia sempre mais um prato para colocar na mesa.

Ali viveu a Palmira Terceiro, de Pessegueiro e o seu marido, o Manuel Bastos, pais do Vitorino Bastos, o Bastos do Sporting Clube de Portugal. É curioso! Vivemos lado a lado durante um ano: ele num berço! Eu numa pequena cama em madeira, pintada de azul, com grades! Ambos viemos a ser atletas do Sporting: ele no futebol; eu no atletismo.

Citei este caso por curiosidade. A casa dos meus pais estava sempre cheia de parentes e amigos.

Respondendo à questão: as pessoas que por lá passaram e que mais me marcaram foram: Os meus primos: o José Maria Antunes, que tanto me aturou, desde o meu nascimento até 1961 - ano em que partiu para França, e o José Augusto Simões Gaspar, desde 1959 até 1970.

Faço uma referência muito especial às visitas que o nosso tio Manuel Nunes de Almeida, tia e primos nos faziam todos os anos. Era a visita sempre esperada! Natural da Malhada, Góis, meu tio, irmão da minha avó materna, fora bem-sucedido nos negócios em Lisboa, então, nos dias que antecediam o Natal e a Páscoa, visitava todos os sobrinhos os quais ajudava financeiramente.

A grande lição que o meu tio nos deu, e deu aos seus filhos, foi que a solidariedade não é palavra vã! Fazia questão de mostrar e dar a conhecer ao meu primo, que tinham uma tia e primos a passarem por sérias dificuldades. A nós, seus parentes menos afortunados, ensinou que nunca se deve abandonar ou ter vergonha da família em que circunstância for. Quem vive melhor não deve estar à espera que lhe peçam esmola, deverá abandonar a sua casa e ir ao encontro dos mais necessitados.

Foi assim que passei a vestir a roupa usada do meu primo, Luís Manuel César Nunes de Almeida, que faleceu em 6/9/2004 no desempenho de um alto cargo da Nação - Presidente do Tribunal Constitucional.

Uma nota final: fomos sempre amigos, nunca cortámos o elo que nos ligava e estive presente na cerimónia fúnebre de Estado - nem uma só “cunha” lhe meti… Ele também era assim! Sofreu um enfarte do miocárdio, em Espanha, e nem sequer disse aos que o socorreram que era uma das principais figuras de Estado -Presidente do Tribunal Constitucional de Portugal.

Claro que me recordo das centenas de parentes e amigos que lá viveram ou simplesmente o visitaram. A casa tinha vida!

Um especial carinho e admiração para a minha querida tia, Emília de Jesus Alexandre, de Moninho, que se deslocava do Pátio do Carrasco à nossa casa para nos tirar o “quebranto”.

Que fascínio exerceu, em mim, a tia Emília, do Pátio do Carrasco!

- Rogério! “Unge as mãos e os pés”!

E ali ficava sentado num banco rente ao chão, costas direitas e joelhitos bem unidos.

- O rapaz tem “cobranto” e rezava…

Depois minha mãe fazia um defumadouro e eu respirava os cheiros ancestrais dos contos mágicos do meu pai…

SERRAS – Soubemos por amigos que é delicioso ouvir o que lhe foi transmitido por seu pai, coisas de crendices e tradições. Pegando em, “...eu respirava os cheiros ancestrais dos contos mágicos do meu pai…”, não quer partilhar com os nossos leitores um pouco dessa cultura tão esquecida?

ROMASI - Mais uma vez quero agradecer a referência que faz ao meu querido pai. José Augusto Simões, exímio contador de histórias e não só. O meu pai foi o melhor aluno da Pampilhosa da Serra, nos anos em que lá estudou, tem 85 anos, está vivo e recomenda-se.

Tentando responder a esta questão, terei de contar a história que mais me intriga e encanta: “a morte anunciada da minha avó, a “Ti-Mariquitas”, tantas vezes contada por meu pai.

Falar na minha avó, que nunca tive o prazer de conhecer e de a abraçar, é falar de uma grande mulher, de uma boa mãe, de uma mulher inteligente, é falar de amor. Tal como já escreveu o Dr. António Ramos de Almeida, a Póvoa teve desde sempre estóicas mulheres. Infelizmente, o primo António, deixou de publicar as suas memórias em “Ecos da Póvoa”, numa coluna que eu lia de um sopro, intitulada “Alpendre de Santa-Eufêmia”.

Mas essa história começa assim:

Era uma vez um menino órfão que bem cedo abandonou a sua aldeia – A Póvoa – Pampilhosa da Serra.

Deixou para trás a bola de trapos, os companheiros de escola, da brincadeira e do trabalho; as pessoas a quem lia e escrevia as cartas e o trabalho duro da aldeia.

Era muito cedo a manhã. A sua mãe, doente, rezou consigo as últimas orações e entregou ao menino um saco de pano com as poucas “roupitas coçadas” e um naco de broa para disfarçar a fome na viagem.

Trazia consigo a vontade de vencer e na bagagem a mocidade perdida.

Tinha e tem uma memória espantosa!

Carregava no pensamento a aventura. Era responsável e “magicava” por uma vida melhor: secreta ilusão de quem foi incapaz de renegar a educação…

Percorreu a pé grande distância que o separava da camioneta e soletrava, palavra por palavra, os últimos conselhos de sua mãe.

-Filho: A humildade é filha da virtude! Deves respeitar toda a gente: tanto os mais novos como os mais velhos. “O bacorinho manso mama em sua mãe e na alheia! O bravo nem na sua chega a mamar”

Finalmente, o comboio a carvão que apanhou na Lousã e, no dia seguinte, chegou à cidade que a partir daí chamou de sua.

Lisboa, nesse tempo, agitava-se de trabalhadores migrantes na sua própria Nação.

A Europa estava em guerra, mas o menino disso pouco sabia. Recordava-se de um velho parente escutar a telefonia, às escondidas, e de ouvir falar nisso em surdina. Tão pequeno e já “alombava" os cabazes da mercearia:

- Que importa se já estava habituado! Afinal os passeios eram melhores que o caminho das cabras.

Mas sonhava! Todos os meninos sonham!

Às vezes, ainda há pouco se tinha deitado e já estava levantado para voltar a carregar as mercearias. E, enquanto subia as escadas mais íngremes, rezava à espera de um milagre que trouxesse de volta a escola para um dia ser “doutor”.

Mas sonhava! Sonhava, digo eu: pois o sonho é toda a compensação na vida de quem sofreu.

O menino queria estudar! Ser alguém! Mas a tragédia tornou a voltar, numa Terça-feira, quando soube da morte de sua mãe lá na Aldeia!

Nas vésperas, houve uma grande azáfama na Póvoa!

A sua mãe, de nome Maria Ascenção Ramos, fez questão em anunciar, nessa Sexta-feira, que no dia seguinte partiria numa viagem para o Céu…

E disse à irmã do menino:

- Laura vai chamar o “Ti Manuel Barrocas” para me tirar as medidas e fazer o meu caixão.

A irmã do menino chorava, não queria ir - mas foi!

Chamou de novo a irmã do menino, e disse:

- Laura! Limpa muito bem a casa e logo, quando acabares, vai chamar o Povo.

Mas a menina chorava, enquanto limpava a casa com a vassoura de carqueja.

Por fim, lá foi de casa em casa transmitindo a mensagem da "Ti Mariquitas” e o povo da Póvoa foi em peso sentir o peso das palavras de despedida da minha avó.

O dia finava, era um Sábado (12 de Março de 1938), fim anunciado da mãe do menino.

Dizem que a sua mãe se despediu de todos - pediu perdão de todas as suas ofensas, se ofensa alguma vez tivera para com alguém.

Dizem que nessa tarde, de Sábado, terá dito para as pessoas que ali estavam:

- Já me sinto satisfeita, tenho aqui muitas pessoas queridas que já morreram ao meu lado. O meu filho à cabeceira! A minha filhinha ao meio e a minha irmã aos pés. Deus está a entregar-me uma mão! Eu entrego-Lhe as duas. – E morreu!

Faço aqui um parágrafo. Toda esta história não é uma “estória” ou uma fábula.

Recordo-me do menino, já pai, meu pai, contar que a sua mãe, a minha avó, ainda terá dito:

- O meu filho escreveu-me hoje uma carta! Mas eu já não a vou receber. Vou morrer hoje e a carta só vai chegar na segunda-feira.

Minha avó faleceu nesse Sábado no dia 12 de Março de 1938,foi sepultada na Pampilhosa da Serra, a um Domingo como ela sempre pediu ao seu “DEUS”.

Meu pai só recebeu a notícia por carta, na mercearia da Rua do Grilo, na Terça-feira dia 15 de Março de 1938.

Tudo isto foi-me contado em menino por meu pai e confirmado por parentes que presenciaram estes factos em vida.

A resposta já vai longa e tenho de abreviar. Desde muito cedo que escutei histórias relacionadas com “aparecimentos” e, de tanto as ouvir contar, até nos parece que vemos coisas, que sabemos ou pensamos ser, meras ilusões ou visões imaginárias. Sobre isto nada tenho a acrescentar.

Tal como a minha avó fazia, meu pai rezava sobre a minha cabeça as mesmas orações que a minha avó lhe rezava. Algumas são autênticas “ladainhas” e nunca as consegui decorar. Havia uma que era rezada três vezes e era assim: Cruz digna, cruz magna, coisa que Deus fez em si, coisa má não venha aqui. E rezava, três vezes, o Pai Nosso”.

O cobranto, na Póvoa, era tirado a animais e pessoas. Punham água dentro de um púcaro de barro e numa pequena fogueira queimavam quatro paus. Quando estavam em brasa agarravam os paus, com uma pequena tenaz, que deixavam cair na água e rezavam orações já perdidas. Quando os paus vinham ao cimo da água o cobranto já tinha passado.

Existiam tradições bem interessantes e quiçá ainda conhecidas das pessoas da Póvoa. O Dia de Santa Cruz.

Em Maio as pessoas da aldeia faziam cruzes, em madeira, que colocavam em todas as hortas que tinham cultivado.

Já disse que foi com muito labor e sacrifício que este nobre e valente povo construíram as hortas. Com esta tradição procurava-se pedir a protecção divina para que as trovoadas, de Maio, não causassem enxurradas e não destruíssem as terras.

Por falar em trovoadas, quando as havia e eram fortes, as mulheres da aldeia rezavam orações a interceder pela preservação das suas casas e das casas dos vizinhos.

Bem interessante era o ritual do oferecimento de luz aos mortos.

Quando morria alguém na Póvoa iam de todas as casas para o velório. Todas as mulheres levavam uma candeia de azeite acesa, que depositavam na sala onde estava o corpo, para iluminar a alma do defunto. Depois, todos rezavam o terço durante a noite que ofereciam por sua alma. Arremata o meu pai que nesse dia a família não fazia comida e que era oferecida pelos vizinhos.

Já no Carnaval “corriam o Entrudo”. Dois rapazes, um de cada lado da casa visada, ou da povoação, tocavam cornetas, com bastante sonoridade, e proclamavam alto e a bom som factos divertidos, de escárnio e mal dizer, relacionados com pessoas daquela casa ou da aldeia.

Tal como noutros locais existiam as “Janeiras”.

O grupo era composto por homens e rapazes. Tocavam guitarras, harmónios, ferrinhos, e percorriam toda a aldeia, cantando, parando em todas as portas, com o fim de obterem chouriços, carne ou lombo de porco, vinho e outras iguarias.

O meu pai recorda-se de uma quadra que contavam e era assim:

“Senhora que está á fogueira

Assentada na sua cortiça

Deite a faca ao seu fumeiro

E traga já uma chouriça.”

Esta recolha de alimentos tinha por finalidade realizar um grande banquete comunitário, em dia de reis, e acabava tudo em festa.

Mais uma vez se nota aqui a unidade deste povo que, ainda, perdura noutras tradições.

Finalmente uma tradição que muitos, como eu, conhecem quase sem dar por isso. Tenho pena que não se tenha mantido nestes novos tempos de alheamento total.

Diz o meu pai que quando qualquer pessoa saía da Póvoa, isto é, quando se ausentava por muito tempo, a pessoa que deixava a aldeia ia a todas as casas dizer adeus até ao seu regresso.

Quando voltavam à aldeia da Póvoa iam, os que lá estavam, à casa do que tinha chegado para o cumprimentar.

Quanto às “mezinhas” era hábito enraizado em todos os Beirões. Os serranos tinham por hábito curar as suas “maleitas”, ou seja doenças diversas, com diversas flores e plantas. Utilizavam a flor de laranjeira; a carqueja; o sabugueiro; a marcela; folhas de oliveira; o alecrim; a erva-cidreira; as urtigas; hortelã e outras. Para curar a constipação utilizavam as papas de linhaça que num pano colocavam no peito, mas sempre quente, e bebiam aguardente com mel.

Para as dores do corpo esfregavam-se com aguardente de mostarda.

 

CONTINUA.

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publicado por poetaromasi às 17:31
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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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