ASAS INSEGURAS
Rogério Martins Simões
Era triste a triste violeta,
Morava perto do jardim,
O jardim fechava às oito,
A violeta pegava às vinte…
Asas aladas e inseguras,
Andava de mão em mão,
Vendia falsas ternuras
Quem lhe daria o condão…
Tinha o passado às escuras.
O presente era um vulcão…
Perdeu as espigas maduras,
Deitou fora o coração.
Era triste a triste violeta,
Morava perto do jardim,
O jardim abriu às oito
A Violeta partiu às vinte…
Praia das Bicas – Meco 01-10-2011 00:54:26
Poemas de amor e dor
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publicado às 03:09
UM PÚCARO DE SAUDADE…
Rogério Martins Simões
Regressei à velha casa da aldeia.
E o trinco da porta sorriu…
Entrei!
A mesa ainda estava posta…
Era uma caixa de silêncio…
No meu lugar vazio havia
Um prato, um talher
E um corpo longínquo…
Tinha sede…
Procurei o púcaro da saudade…
Então,
Uma mulher adelgaçada
Colocou a rodilha à cabeça,
Abraçou o cântaro;
Pegou-me pela mão;
E partimos para a fonte…
Meco, 27-09-2011 15:54:52
Poemas de amor e dor
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publicado às 23:20
CORAÇÃO DE NADA
Rogério Martins Simões
A toda a hora, ditosa,
Quero estar contigo e ter
A pérola mais preciosa:
Meus olhos para te ver.
Versos em flor, viçosa,
Poemas ao alvorecer.
Em dois botões de rosa…
Meus olhos os querem ler.
Quero também versejar,
Para que possa adoçar,
Os teus sorrisos de gata.
Assim o verso me ceda,
Teu corpo feito de seda,
Coração e seios de prata.
Meco, 25-09-2011 23:13:40
Poemas de amor e dor
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publicado às 23:38
DEAMBULAÇÕES
Rogério Martins Simões
Avanço para a estrada que me vai levar…
A estrada que piso, e que nunca foi estrada,
É o meu caminho estreito, pisado…
Magoado
Mesmo no centro do universo.
Arranco de um lugar vazio
Que me leva sem fim à vista.
Avisto outro caminhante:
A sombra deste instante
Que comigo ensaia um verso.
A felicidade é um instante!
A amargura é uma eternidade!
Adiante!
Um cão abandonado sai do lixo
Fareja as minhas pernas
E segue o seu caminho.
Pensava que estava sozinho
Neste universo das palavras…
Que palavras teria ele para me contar?
Quem o terá abandonado?
Por que não ladrou,
Quando me encontrou,
O pobre do bicho?
Prossigo o meu caminho
Devagarinho!
De que lado está o sol?
Amanhã irá chover. Agora, não!
Meco, 14-08-2011 17:53:29
Poemas de amor e dor
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publicado às 18:18
Castelo de S. Jorge (Foto de Rogério Martins Simões)
DIÁLOGOS: AS PEDRAS
Rogério Martins Simões
Hoje pisei as pedras da calçada,
Devagarinho!
E as pedras disseram baixinho
- Olá poeta
Lisboa, 8/02/2011
Poemas de amor e dor
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publicado às 13:22
Rogério Simões com 5 anos de idade
Memórias de um Inverno em 1954
Rogério Martins Simões
De repente, do céu,
esvoaçaram farrapos de algodão
e através da vidraça eu via
que a minha rua se revestia
Com uma veste branca e fria:
Era o inverno
Que ainda não conhecia…
E apresentava-se esplendoroso
Ali, ao alcance da mão,
Nevava, em Lisboa, nesse dia.
E os meus pais assomaram à janela,
Enquanto, entre os dois,
em bicos de pés eu crescia…
Queria tanto brincar com ela,
E a neve não me via…
Bem cedo parti à descoberta.
Nada se sabe
e tanto se descobre no dia-a-dia.
Todos os meninos são marinheiros,
cavaleiros andantes,
que, pouco a pouco, vão sitiando
com olhares e andares
as terras e os mares.
Tantas coisas me tinham ensinado...
“Os meninos são marinheiros
São cavaleiros andantes
Os meninos são guerreiros
Homens pequenos, gigantes.”
Meu irmão ocupava, agora, o berço
que tinha sido meu.
Estava irreconhecível;
Era pequeno
e pintado de azul.
Olhava.
Ali estava um menino
parecido comigo,
e eu desejoso por brincar.
- Cresce depressa e vem brincar.
- Cresce depressa
para fazeres parte da minha história.
-Sou um menino pequenino,
maior do que tu,
cresce para seres como eu:
Cá em casa tudo é grande…
Pelas tábuas da velha casa
jogávamos ao berlinde.
Meu irmão,
olhava o berço que já foi seu,
que já foi meu,
e repetia as mesmas palavras:
- Cresce depressa
para brincares comigo.
E a nossa mãe
dava de mamar ao nosso irmão.
E ralhava!
Ralhava connosco,
ao ver os buracos
feitos no chão.
Havia, agora, três meninos;
Três buracos no chão,
Pequeninos,
do tamanho dos berlindes.
O tempo passa depressa
e a escola começara.
Conheci outros meninos
que jogavam ao berlinde na rua.
E tinham abafadores,
berlindes grandes,
com que “abafavam”
os berlindes dos outros…
Aprendi a guerrear…
nunca fiz parte dos fracos…
E se por qualquer razão,
A razão que em mim manda,
Certo estava, às vezes não.
“Escutei sempre o coração
Essa voz que me comanda”.
Nunca mais nevou na minha rua!
(Memórias)
Lisboa, 2005-02-28
Poemas de amor e dor
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publicado às 21:23
QUERO RESPIRAR
Rogério Martins Simões
Os silêncios.
A tristeza dominante;
Este estado de alma reinante
que não me deixa descansar;
Este corpo que não obedece,
e padece,
perto e distante:
Copo esguio,
rolado, rolando
numa ponte levadiça,
que mais parece preguiça,
ora se levanta, e logo tomba.
Tomba a própria vida,
quando a rua desliza
e nos pisa,
quando ela nos foge
nos derradeiros lances de estrada,
inclinada,
e lá vai...
Ainda se fosse.
Não vai!
Esta dor acamada,
parando,
parada
em cada lance de escada.
Sou um peso morto,
lastro, navio à deriva,
vida encalhada:
sofrida.
A minha sorte é nada.
Decrépitas tristezas
tomaram o pulso ao meu fôlego:
Quero respirar…
Aldeia do Meco, Campimeco,
2/10/2009
Poemas de amor e dor
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publicado às 22:16
(Óleo sobre tela Elisabete Sombreireiro Palma)
PRESENTE E VERBO AMAR
Rogério Martins Simões
Sempre que vou comigo,
Comigo fico a pensar:
Quantas vezes em mim,
Contigo no meu olhar.
Quando estou contigo,
Contigo no teu cuidar...
Quantas vezes em mim,
Comigo, te sinto chorar.
Tento, mas não consigo,
Não consigo disfarçar:
Quantas vezes em mim,
A morte mais desejar.
Sempre que estou contigo,
Por vezes volto a sonhar:
Sonho que estarás comigo
Quando de novo voltar.
Sempre estarás comigo!
Sempre estarei contigo!
Presente e verbo Amar.
Lisboa, 19-02-2011 15:49:25
Poemas de amor e dor
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publicado às 23:13
Meu falecido tio
José Antunes
ENVELHEÇO A ESPAÇOS…
Rogério Martins Simões
Envelheço a espaços
E não dou por isso…
Já não subo à figueira
Onde apanhei figos…
Vejo chegar os netos
E partirem os amigos
Seara ondulante
Numa dança com espigas
Pão azeite, coentros
E alhos para as migas…
Já não preciso de sol
Pois a espiga está madura.
Já não necessito de água
Pois a mágoa está segura.
Envelheço a espaços
E, afinal, dou conta disso.
Lisboa, 4/8/2005
(Registado no Ministério da Cultura
- Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.C. –
Processo n.º 2079/09)
Poemas de amor e dor
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publicado às 14:07
Fotografia de Rogério Simões
A seguir a mim
Rogério Martins Simões
A seguir a mim
Tudo perdurará no tempo
No Sol,
no orvalho da manhã,
Tudo é
e será diferente.
E se tudo andar!
Guiar,
parar,
falar,
Ou gritar!
Quero girar
Por onde tudo anda
E nada pára.
E, acima de tudo,
Quero acordar no tempo
E partir!
Andar por aí…
Fazendo tudo, e nada,
Em busca do meu papel.
Que papel?
De um jornal que se apaga,
No estrume,
Ou se queima no lume?!
Então, que arda!
Ou a vida se renove.
Mas… a prova?
A prova está aqui,
ainda vivo,
Cheirando o ar,
Semeando
Colhendo
O brilho do sol,
Por entre as nuvens.
Quero!
Atravessar os desertos
Do pensamento
E colher as areias
De cada momento:
Grão a grão!
Até ao fim!
Pois a grandeza é estar vivo
E de certeza
Permanecer no espaço
Depois de ido…
À espera
Que uma simples gota, de orvalho, caia
E me traga de volta,
Sem cabelos grisalhos,
Um sorriso de criança:
No colorido de uma crisálida
Ou num papagaio de papel
A seguir a mim
Tudo será diferente…
15-12-2003
(Registado no Ministério da Cultura
- Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.C. –
Processo n.º 2079/09 )
Poemas de amor e dor
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publicado às 17:59