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POEMAS DE AMOR E DOR

Livro de poesia GOLPE DE ASA NO SEQUEIRO Editado pela CHIADO EDITORA Poeta: Rogério Martins Simões Blog no Sapo desde 6 de Março de 2004 Livro de poesia POEMAS DE AMOR E DOR (Chiado books) já à venda




Rogério Martins Simões

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17.04.21

pitralon1

O BARBEIRO

Rogério Martins Simões

 

Maria.

Espero que ao receberes esta carta estejas bem que nós por cá vamos na graça de Deus.

Recebi a tua última carta, onde dizias palavras lindas, como só tu as sabes dizer. Com ela vinha a senha para levantar o cabaz das mercearias que nos mandaste pela camioneta.

Já recebemos a encomenda, estava tudo bem, mas escusavas de te incomodar.

Aqui na terra tudo vai como no costume.

A cabra da Ti Rosário entrou na horta e foi dar cabo da vinha do tê pai.

Ouvi dizer que o Ti Chico fugiu para França. Que raio é que deu ao “home” que tinha aqui tanto mato para roçar.

O Zé do fundo do lugar, coitado, é que não teve a mesma sorte:

 A família dele está de luto!

Morreu de uma bala ao atravessar a fronteira. Mas esse, coitado, não tinha aqui nada para comer. Agora que vai ser dos filhos dele. É assim! Temos de nos conformar.

Maria! Contaram-me que estás apaixonada e que até já lhe  escreves cartas e que és uma “sem vergonha”

Vê lá, que eu nem quero acreditar.

(Aqui na terra são muitas as mexeriqueiras)

A TI Aninhas, que é cá uma coscuvilheira, pediu ao primo, que trabalha aí em Lisboa, para descobrir se era verdade.

Sabes lá: o Ti Manel da estiva, que é um magano, roubou a carta que escreveste ao teu namorado.

Maria nem sabes a vergonha por que estamos a passar. Ainda se fosses um rapaz... mas logo uma menina tão bem educada que fez a comunhão e tudo.

Maria! Aqui vai uma cópia da carta que o barbeiro copiou. Vê lá se foste tu que a escreveste pois quero desmentir o povo.

Desculpa a letra mas o Ti António, barbeiro cortou-se na navalha.

Por hoje não tenho mais para te dizer. Espero a tua resposta na volta do correio.

Beijos da tua mãe

 

 

Maria Desculpa a letra e não ligues – tudo vai passar.

Ouvi dizer na Rádio Moscovo que a PIDE vai ser corrida pelos comunistas e que as mulheres vão votar.

Por favor queima a carta e manda-me um frasco de “Pitralon” que depois pago.

Este que se assina

António Barbeiro.

 

(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)

Rogério Martins Simões.

P.S:

Estes desenhos da alma ficcionados foram construídos a partir de um comentário que escrevi diretamente a um texto lindo de amor, que a Amiga Maria do Cumplicidades escreveu no seu blog “Cumplicidades Partilhadas”

Mas a Maria já respondeu! E escreveu à sua mãe uma linda carta.

Afinal porque estava na Cidade e não se preocupou com as “linguareiras”

-Maria esqueceste o “Pitralon” para a barba que o Ti António Barbeiro pediu.

pitralon

Mas o bom António quando a carta chegou já não a leu.

Resposta da Maria na volta do correio

Mãe, Sim estou apaixonada. A carta que te chegou às mãos, minha querida mãe, fala de um amor imenso, puro e que me faz tão feliz. Por isso minha mãe te peço, fica feliz por a tua filha conhecer o amor, por a tua filha se viver em felicidade.

Sabes mãe, não conheço outra forma de viver que não através dele, e isso minha mãe, aprendi contigo. Por isso te peço, ignora o povo, e não sintas nunca vergonha. O amor não se vive dela. Nada do que consta nessa carta são sem vergonhas, minha mãe.

Lê, repara em cada palavra, em cada sentir que elas revelam, não é isso que é a vida minha mãe?

Não é assim que deveríamos todos viver, no amor? Acredito que se todos se vivessem nele, saberiam compreender, e com toda a certeza o mundo seria muito mais humano, estariam todos muito mais disponíveis para os outros. Não concordas? Não desmintas, mãe. Confirma que foi a tua filha que a escreveu. E não ligues à voz do povo, o importante não é que saibas que a tua filha, está bem? Da filha que te ama... Enviado por Maria Branco

 

O narrador volta a chamar pelo poeta

Aos Homens grandes

O António que escreveu as cartas para a Maria era um homem notável: Sendo barbeiro de profissão, era “Médico Enfermeiro” nas horas vagas.

António foi buscar o saber nos velhos livros de medicina, e porque era letrado – poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever – lia e escrevia as cartas do povo que não sabia ler nem escrever.

Mas o António “Barbeiro” gostava de ouvir!

 (Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!)

E mal tarde tardasse a noite, pé ante pé como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho e sintonizava de novo a Rádio Moscovo.

António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e, no silêncio das quatro paredes, se a telefonia emitisse uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não se ouvir:

- Não viesse por ali algum “bufo” para o denunciar ou algum agente da polícia política para o levar.

Mas o “Barbeiro” que sabia tanto… procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam.

Foi assim que ouviu dizer, aos comunistas, que iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar…

Talvez por isso o António, barbeiro de profissão; e médico enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia “abusivamente” em entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas.

Certa noite de intensa tempestade o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo!

Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!

(Desenhos da alma e do pensamento do poeta ao sabor da pena)

À Maria Branco o meu agradecimento por completar este diálogo.

Rogério Simões.

(Homenagem póstuma ao Ti João Barbeiro da Póvoa, amigo de meu falecido pai)

 

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    MEIO HOMEM INTEIRO
    Rogério Simões
     
    Meia selha de lágrimas.
    Meio copo de água
    Meia tigela de sal
    Meio homem de mágoa.
    Meio coração destroçado
    Meia dor a sofrer.
    Meio ser enganado
    Num homem inteiro a morrer.
    11/4/1975

    Todos os poemas deste blog, assinados com pseudónimo de ROMASI ou Rogério Martins Simões, estão devidamente protegidos pelos direitos de autor e registados na Inspecção-Geral das Actividades Culturais IGAC - Palácio Foz- Praça dos Restauradores em Lisboa. (Processo 2079/2009). Se apreciou algum destes poemas e deseje colocar em blog para fins não comerciais deverá colocar o poema completo, indicando a fonte. Obrigado

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