Contraste nº 1
Ex-Votos (Nossa Senhora da Atalaia, Portugal)
46 anos a escrever e a rasgar poesia
Já escrevi neste blog - comecei a escrever poesia na década de 60 do século passado. Um poeta só atinge a maturidade poética escrevendo - mesmo rasgando.
A poesia desse tempo, até ao ano de 1986, foi quase toda rasgada. Porém, ao longo destes anos ia-os distribuindo por colegas, familiares, amigos, e foram eles que me fizeram chegar os que desse tempo me atrevo a editar.
Católico praticante, dirigente Diocesano da JOC (Juventude Operária Católica), não podia deixar de olhar o que me era permitido ver e fingir não ver o que não queriam que visse. Daí que a poesia expressasse a falta de amor, a ausência de liberdade, a difícil vida dos trabalhadores, a injustiça social e a emigração, enfim, o sofrimento de um povo que via os seus filhos perecer, ou serem feridos, numa guerra desnecessária. (como desnecessárias são todas as guerras).
Os poemas desse tempo eram assinados com o pseudónimo de ROMASI. Por vezes arriscava mais na construção poética e na sorte…, outras vezes escrevia por metáforas, com palavras “encalhadas”... alguns compreenderão o que quero dizer.
A minha evolução como poeta fez de mim um crítico, da minha poesia, razão suficiente para ter evitado dar a conhecer alguns dos meus poemas, ou ensaios poéticos, em verso branco, muito embora já tenha colocado aqui poemas desse tempo – aqueles que considerava melhores.
Na passada 5º feira, em Queluz, dedicaram à minha nova poesia uma tertúlia poética e estive presente. Estranhamente, para mim, uma amiga levava um poema da minha primeira fase poética, que vai até 1974, e fez questão de me dizer que gostava desse poema. - TRAÇO, TRAÇO; TRAÇO; PONTO. Foi esta amiga que me fez repensar e tomar a iniciativa de os editar.
Voltei a ler esses
Lisboa, 06-04-2008 22:20:35
Saudades,
ROMASI
CONTRASTE
Romasi
Era imponente
e erguia-se majestoso
naquela verde colina.
Era miserável
e perdia-se na sombra
do colossal palacete...
Havia fortuna,
luxos, aparatos,
grande riqueza.
Havia fome,
desgraça,
amarguras sem fim.
A chuva caiu.
Os canos a escoram
e os senhores
continuaram a dormir...
Mas a chuva não pára,
continuou a cair.
A lama escorregou!
A chuva passou
pela madeira podre
e a barraca inundou.
Foi a desgraça tudo levou
Somente por lá ficou
O local da barraca
E o grande palácio...
25/09/1968
- Menino cor de lama
Porque quem toca o sineiro?
-Foi a água que me atirou da cama
Pela encosta do ribeiro.
Rogério Martins Simões
20/07/2005

