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POEMAS DE AMOR E DOR

Livro de poesia GOLPE DE ASA NO SEQUEIRO Editado pela CHIADO EDITORA Poeta: Rogério Martins Simões Blog no Sapo desde 6 de Março de 2004 Livro de poesia POEMAS DE AMOR E DOR (Chiado books) já à venda




Rogério Martins Simões

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08.02.19

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HORAS LONGÍNQUAS

Rogério Martins Simões

 

Regresso à Aldeia das horas longínquas.

Das hortas vivas, das casas cheias,

E fico atento aos sinais de vida:

No chiar de um carro de bois;

Nos chocalhos de um rebanho;

Nos contos à lareira, de lobos e papões.

 

Depois…O galo cantava e a vida recomeçava.

Havia sempre um molho de mato para roçar,

Ou uma leira para matar a sede.

- Bom dia senhora Maria

- Bom dia Ti Manel

 

Lado a lado com o presente,

O passado é a distância que me separa da aldeia

E que me introduz nas sombras.

Ainda sinto os cheiros da aldeia e o calor do verão.

Ainda recordo a fonte velha e a sua água refrescante;

O Cântaro na cantareira da casa da Eira.

A panela de ferro, a trempe e a caçoila em cobre,

O borralho e a braseira.

Ah! Como me sentia e era feliz.

Por isso estou de regresso

À Aldeia das horas longínquas.

Madruguei e ninguém me apanha.

Já deixei para trás o castelo que fica no alto da aldeia.

Castelo de sonhos? Cada povo tem o seu…

Estou a caminho da Feteira.

Vou provar os figos, e os abrunhos,

Os cachos, as ginjas e as maças.

E os morangos que crescem nas paredes das hortas.

Como leem estou marcado.

Sou um poço de saudade!

Por isso regresso à aldeia dos meus avós.

À aldeia dos afetos e das minhas recordações.

Ali vivi em liberdade

Ali consolidei a minha formação

Ali aditei valores à minha vida.

Aquela gente ensinou-me a dar e a receber.

A repartir e a não estragar o pouco que tinham.

Aquela gente boa ensinou-me a amar.

Convidem-me para provar as filhoses.

A sopa de feijão atulhada com couves e faceira do porco.

O lombo conservado em banha na panela de barro.

E se tiver frio e as casas cheias dormirei no palheiro,

Ou no sobrado por cima do curral das cabras!

 

Não! Não quero despertar o sonho

O despertar é um coice de mula que me deixa atordoado.

Agora tenho de ir!

Não posso, nem devo, fazer esperar o povo.

O povo não parte sem mim,

Nem eu parto sem o povo!

Vamos todos como os da Póvoa!

 

Meco, 31/05/2017 17:18:00 8/02/2019

(Pequena homenagem ao povo de uma aldeia, a aldeia do meu pai e dos meus avós paternos, a Póvoa, Pampilhosa da Serra, que por ter sido tão unida ainda tem um lema VAMOS TODOS COMO OS DA PÓVOA)

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

28.06.18

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 (Póvoa anos 60 século passado)

 

Vieram de longe

Rogério Martins Simões

 

Vieram de longe de onde se avista a pinha!

De olhos esperançados e o rosto enrugado,

Vieram para Lisboa para perto da linha:

Sempre por perto porque o trem fica ao lado…

 

Estrangeiros na sua terra; que estranha sina

Que os viu chegar no comboio apinhado.

Com rugas do cansaço e mãos de resina.

À procura de trabalho mais remunerado.

 

Trabalhavam sol a sol. Qual terra prometida?

Visitavam a aldeia já cansados da vida,

Onde colhiam os cachos e faziam o vinho…

 

Esventraram montes e derrubaram ruínas…

Construíram pontes, povoaram colinas…

E regressaram à aldeia no final do caminho…

 

2004-04-23

(Aos meus pais)

 

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29.06.17

FADO: Bate, bate coração

ACADEMIA DA GUITARRA PORTUGUESA

Voz: Américo Nunes de Almeida

Música: Alfredo Marceneiro

 

BATE, BATE, CORAÇÃO

Rogério Martins Simões

 

Quando com dores me deito,

Sinto galopar no peito,

Este sofrido alazão.

Por me sentir a tremer,

Soluço poderá ser,

Não saltes mais coração.

 

Com esta dor que rejeito,

Esta vida assim sem jeito,

Talvez mude de missão.

Com este meu mal-estar

Oiço o meu peito gritar:

Não batas mais coração.

 

Sabes bem que sou sincero,

Não penses sequer que espero,

Por piedosa solução.

E antes que bata demais

Diz à vida ao que tu vais:

Parar o meu coração.

 

Mas se ainda voltas a ter,

Coragem para viver,

No meu peito de paixão.

Deus te deu vida severa,

Tens o meu tempo à espera,

Bate, bate, coração.

 

Meco, 19/01/2017 21:41:37

(A publicar no meu próximo livro)

(Direitos de autor protegidos)

Ao meu querido avô paterno, António Antunes Simões.

Nasceu em 1881 na Pampilhosa da Serra – Aldeia Velha – casou na Póvoa e migrou para Lisboa em 1897.

Trabalhou como estivador e era um exímio tocador de guitarra.

Do pouco que sei do meu avô, dizia meu pai, que terá ensinado o Armandinho a tocar guitarra. Na verdade em investigação posterior constatei que o meu avô viveu no Pátio do Quintalinho quando o Armandinho tinha 5 anos de idade. Foi sócio da Juventude Monárquica Conservadora para poder tocar guitarra, tendo falecido na Póvoa em 1934.

Do seu neto: Rogério Martins Simões

 

 

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11.06.17

PAI (2).jpg

 

Palavras e sentimentos; 84º aniversário do meu pai

Rogério Martins Simões

 

Em 2006, no 84º aniversário do meu querido pai, José Augusto Simões, escrevi e dirigi as palavras que seguidamente reproduzo

Dado que as mesmas são genuínas e dão uma perfeita imagem do meu pai resolvi colocá-las aqui, tal como o fiz em 2006 quando as editei no meu blog POEMAS DE AMOR E DOR.

Essas palavras já foram plagiadas, pois as encontrei assinadas por outras pessoas. Por isso lamento pois plagiar sentimentos é dor maior que a imbecilidade de quem se dá ao trabalho de plagiar.  

E com isto não vos ocupo mais tempo. Espero que tenha sido capaz de expressar os meus sentimentos, e a minha admiração, para com um pai. Esta é a homenagem possível, e pública, que presto a meu pai que faleceu passados 10 anos com 94 anos de idade.

Rogério Martins Simões

Meco, 11/06/2017

 

PAI

Hoje, 19 de Maio de 2006, quis Deus que fosse o seu aniversário, e que aniversário meu Deus…: 84 lúcidos anos!

Pai eu sei que no seu bilhete de identidade consta ter nascido a 20 de Maio de 1922. Mas a essa data está errada!

Pai há tantas coisas erradas nos registos!

Se eu procurasse no Registo pela data do seu nascimento havia de ser o “bonito”.

E se eu insistisse, e dissesse que o pai nasceu no dia 19 em vez do dia 20, chamar-me-iam “teimoso” ou “louco varrido”.

É por isso que há por aí tantos loucos, encarcerados na sua sadia loucura, e se verdades dizem não passam de uns insanos.

Às vezes penso: se existem certos actos ditos de loucura, encarados e vistos como tal, eles têm como sublime vantagem de se concretizarem nos sonhos.

Não foram loucos os Santos, e tantas pessoas nobres que se despiram para oferecerem os seus trajes aos pobres!

Não são loucos os sonhadores de um mundo melhor, os que dedicaram toda uma vida a uma causa maior!

Foi loucura viajar no espaço da incerteza e aterrar no império do esplendor como o fez São Francisco de Assis!

Eu sei que sou um sonhador:

nem sempre sou o que pareço!

E se pareço ser o que não sou,

sou aquilo que bem conheço.

Dizia o poeta: que ser poeta é ser fingidor!

- Mas eu não finjo, obrigam-me a fingir!

- Eu não morro, obrigam-me a morrer!

- Eu não sofro, obrigam-me a sofrer!

E se sofrer tanta dor não compensa, ser solidário recompensa exigindo que a vida seja melhor onde a ela exista e aconteça.

Pai! Estas palavras são hoje inteiramente para si apesar de me ter perdido em deambulações.

Quando comecei a escrever, sem ter a menor ideia do que lhe iria dizer, sobravam-me as palavras. Agora, faltam-me as palavras que às vezes tanto me sobram. Mas tenho tantas palavras para si, meu pai!

Ainda há pouco, enquanto conduzia, latejavam-me os sentimentos e tinha na cabeça searas de pensamentos deambulando em movimento.

- Brotavam-me tantas emoções!

- Tantas lembranças!

- Tantas recordações!

Sabe, meu pai, herdei de si esta enorme fortuna que agora sei que desprezam: O sentido da honra; a sensibilidade; a humildade e acima de tudo a honestidade e se rico não fico, com esta riqueza tamanha, é porque me vejo aflito, quando aflito eu fico, para ajudar os seus netos.

Pai parabéns! Porque hoje completa 84 anos.

Como vê, desta vez, não me esqueci, se alguma vez esquecer o esqueci.

Que filho poderá esquecer um ser tão precioso como o pai!?

Recorda-se, meu pai, de nos declamar tanta poesia!?

Tantos poetas! Como este poema de “dia de anos” (ou desenganos), de João de Deus, que o pai recitava, sempre, em seus anos:

Acabo como comecei se acabar eu queria:

Faltam-me as palavras sobra-me a poesia.

 

Mil beijos deste seu filho,

Rogério Martins Simões

Lisboa, 19 de Maio de 2006

e 11 de Junho de 2017

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

22.05.17

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 (Do lado esquerdo a capela de Santa Eufémia. Do lado direito a casa que o meu falecido primo mandou restaurar e que pertence a 4 Herdeiros e mais uns quantos a quem se devem tornas.) 

PÓVOA: REZAS, TRADIÇÕES E MESINHAS 

Rogério Martins Simões

 

Tal como a minha avó fazia, meu pai rezava sobre a minha cabeça as mesmas orações que a minha avó lhe rezava. Algumas são autênticas “ladainhas” e nunca as consegui decorar. Havia uma que era rezada três vezes e era assim: Cruz digna, cruz magna, coisa que Deus fez em si, coisa má não venha aqui. E rezava, três vezes, o Pai Nosso.

O quebranto, na Póvoa, era tirado a animais e pessoas. Punham água dentro de um púcaro de barro e numa pequena fogueira queimavam quatro paus. Quando estavam em brasa agarravam os paus com uma pequena tenaz, que deixavam cair na água e rezavam orações já perdidas. Repetiam por três vezes e quando as brasas vinham ao cimo da água o quebranto já tinha passado.

Existiam tradições bem interessantes e quiçá ainda conhecidas de algumas pessoas da Póvoa: “O DIA DE SANTA CRUZ”.

Em Maio, as pessoas da aldeia, faziam cruzes, em madeira, que colocavam em todas as hortas que tinham cultivado.

Recordo que foi com muito labor e sacrifício que este nobre e valente povo construiu as hortas. Com a tradição de “O DIA DE SANTA CRUZ “procurava-se pedir a proteção divina para que as trovoadas, de Maio, não causassem enxurradas e não destruíssem as terras.

Por falar em trovoadas, quando as havia e eram fortes, as mulheres da aldeia rezavam orações a interceder pela preservação das suas casas e das casas dos vizinhos.

Bem interessante era o ritual do “OFERECIMENTO DE LUZ AOS MORTOS”.

Quando morria alguém, na Póvoa, iam de todas as casas para o velório. Todas as mulheres levavam uma candeia de azeite acesa, que depositavam, na sala, onde estava o corpo, para iluminar a alma do defunto. Depois, todos rezavam o terço durante a noite que ofereciam por sua alma. Arremata o meu pai que nesse dia a família não fazia comida e que era oferecida pelos vizinhos.

Já no Carnaval “CORRIAM O ENTRUDO”. Dois rapazes, um de cada lado da casa visada, ou da povoação, tocavam cornetas, com bastante sonoridade, e proclamavam alto e a bom som factos divertidos, de escárnio e maldizer, relacionados com pessoas daquela casa ou da aldeia.

Tal como noutros locais existiam as “JANEIRAS”.

O grupo era composto por homens e rapazes. Tocavam guitarras, harmónios, ferrinhos, e percorriam toda a aldeia, cantando, parando em todas as portas, com o fim de obterem chouriços, carne ou lombo de porco, vinho e outras iguarias.

O meu pai recorda-se de uma quadra que contavam e era assim:

“Senhora que está á fogueira

Assentada na sua cortiça

Deite a faca ao seu fumeiro

E traga já uma chouriça.”

Esta recolha de alimentos tinha por finalidade realizar um grande banquete comunitário, em dia de reis, e acabava tudo em festa.

Mais uma vez se nota aqui a unidade deste povo que, ainda, perdura noutras tradições.

Finalmente uma tradição que muitos, como eu, conhecem quase sem dar por isso. Tenho pena que não se tenha mantido nestes novos tempos de alheamento total.

Diz o meu pai que quando qualquer pessoa saía da Póvoa, isto é, quando se ausentava por muito tempo, a pessoa que deixava a aldeia ia a todas as casas dizer adeus até ao seu regresso.

Quando voltavam à aldeia da Póvoa iam, os que lá estavam, à casa do que tinha chegado para o cumprimentar.

Quanto às “MEZINHAS” era hábito enraizado em todos os Beirões. Os serranos tinham por hábito curar as suas “maleitas”, doenças diversas, com diversas flores e plantas.

Utilizavam a flor de laranjeira; a carqueja; o sabugueiro; a marcela; folhas de oliveira; o alecrim; a erva-cidreira; as urtigas; hortelã e outras. Para curar a constipação utilizavam as papas de linhaça que num pano colocavam no peito, mas sempre quente, e bebiam aguardente com mel.

Para as dores do corpo esfregavam-se com aguardente de mostarda.

Seguindo a descrição do meu pai, a quem mais uma vez tive de recorrer, na Póvoa não só se semeava a mostarda como também a linhaça.

A mostarda era semeada nos alfobres, no nosso caso, no Vale da Maia.

Quando a planta tinha as sementes secas, era colhida e sacudida para se soltarem os pequenos grãos numa manta ou toalha branca.

Diz meu pai que a minha avó recolhia cerca de 3 a 4 litros de mostarda, que guardava num saquinho de pano muito bem tapadinho.

Faziam a mesinha e o que restava era guardado dentro do saco, na arca do milho, ou pendurada nas lojas ou em outro lugar seco.

A preparação era simples: pegava-se em meio litro de aguardente e despejam-se duas colheres de sopa de mostarda que se deixavam em infusão. Depois utilizava-se e ia-se acrescentando mais aguardente, mais mostarda, até se voltar fazer tudo de novo.

Utiliza-se para curar constipações ou para aliviar as dores no corpo.

A restante mostarda era para dar aos vizinhos.

Mais uma lição de solidariedade deste povo.

Também cultivavam e colhiam a linhaça. Depois era cozida e pisada num almofariz. Após ter sido esmagada era aquecida em papa, embrulhada num pano e colocada no peito ou nas costas para tratarem as graves constipações.

Toda a gente tinha linhaça e mostarda em casa.

Também semeavam tabaco na primavera. Era plantado às escondidas, em lugares afastados das hortas.

Termino aqui o que o meu falecido pai me contou sobre a sua Aldeia, a Póvoa: num tempo em que muitos lá viviam se ajudavam mutuamente e para resolver algum “assunto” iam todos juntos

Partiam as pessoas ficou o lema:

 “VAMOS TODOS COMO OS DA PÓVOA”

(parte de uma entrevista ao Serras online)

 

PóvoaMagusto.jpg

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

26.04.17

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 (A nova casa na Póvoa, Pampilhosa da Serra, que pertence a 4 herdeiros sendo nós, herdeiros de meu pai, donos de 1/4 desta casa depois de se pagarem as tornas. Os outros 3/4 pertencem a primos)

 

UM PEDACINHO DE LUZ

Rogério Martins Simões

 

Deram-me um pedacinho de luz

Tão pequeno,

Mais pequeno que uma noz,

Com que acendi a candeia;

Com que retomei o velho trilho

Para a aldeia dos meus avós

E fiz com essa luz uma estrada

Por onde agora caminho

Lado a lado com o presente.

 

O passado é a distância

Que me separa da aldeia

E que me introduz nas sombras.

Fecho os olhos e ponho-me a pensar

Sem vontade de partir

Sem forças para andar:

Até que o meu corpo pare

Ou a minha alma se revele

Meco, 24/04/2017 23:40

(A incluir no meu próximo livro)

 

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

04.04.17

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SIGA A FESTA

Rogério Martins Simões

 

Continuo a pensar que a promoção deste quase abandono das terras do interior – da Beira Serra – foi, e é um grave erro político.

Quem conhece a Pampilhosa da Serra sabe que a maior parte da população é constituída por idosos. Quem lá vive, e conheceu o "antigamente", repara, apesar de algumas melhorias levadas a termo pelas Comissões de Melhoramentos e pela Câmara Municipal, que a juventude tende a "fugir", como sempre…

 

O desenvolvimento de um turismo "de ar puro", de "pura água cristalina", irá ter no futuro um enorme incremento e a Beira Serra tem todas as condições para ser um dos locais preferidos.

Mas um desenvolvimento não se pode fazer sem ter em conta a preservação dos sinais, dos locais, dos vestígios culturais de um povo. Perdoem-me: fico muito triste ao ver casas medievais arrasadas sem intervenção arqueológica. Salvaguardando a existência de carta arqueológica do concelho, que desconheço; considerando as notícias e os documentos históricos que nos dão conta daqueles locais terem sido povoados por povos primitivos, uma questão paira na minha cabeça: onde para o espólio arqueológico do Concelho? Talvez o defeito seja meu – tenho participado desde 1961 em trabalhos arqueológicos nomesadamente medievais e olho os sítios de uma maneira diferente.

Talvez me preocupe demasiado… com estes assuntos. Porém, tomem a devida nota: daqui a alguns séculos haverá pelas serras grupos de arqueólogos a procurarem o que indevidamente destruíram, deixaram destruir e irão destruir.

Não se culpe o povo! O povo que não dá valor a cacos velhos partidos.

- Ainda que fosse algum tesouro!?

O maior tesouro da Pampilhosa está no seu povo e nos sinais da sua presença – na sua riqueza cultural que se vai definitivamente arrasando.

Deixando estas considerações o Concelho da Pampilhosa da Serra carece de mais infraestruturas, de estradas sem curvas a ligar às grandes redes viárias. O Concelho na Pampilhosa da Serra, a Beira Serra, apesar de ser o pulmão de Portugal, e fonte quase inesgotável da água que abastece Lisboa e não só, não foi, nem é compensado, bem pelo contrário: é simplesmente votado ao abandono. Mais uma vez lhes digo: virá o dia em que a água terá mais valor que o então extinto petróleo e o ar será disputado pelos povos.

O Lar da Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra e a fixação de idosos às suas velhas aldeias é um exemplo a seguir e a fomentar. Existe acompanhamento e assistência no domicílio a idosos que, assim, continuam ligados às suas aldeias. Seguindo esta ideia, sabendo e conhecendo que muitas aldeias já estão abandonadas definitivamente, penso que poderiam ser apoiadas, essas aldeias e esses lugares, criando condições de vida para lá morarem os idosos que quisessem em vez de os colocarem em "silos". Falo concretamente em habitações - casas individuais ou coletivas com todas as condições. Falo em disporem de equipamentos de lazer, falo em investimento e em criação de postos de trabalho.

Dou mais uma vez o exemplo da aldeia onde meu pai nasceu, a PÓVOA. Os idosos que por lá vivem são bem mais felizes que os colocados em lares da terceira idade: Mulheres e homens jogam às cartas na casa do povo, semeiam e cultivam pequenas hortas próximas de casa e, agora que finalmente o Governo "acordou" para a injusta perseguição aos produtos tradicionais, talvez possam voltar a criar alguns animais para consumo caseiro, como sempre o povo criou.

Talvez volte a "petiscar" uma canja de galinha ou uns torresmos sem serem de "aviário".

Esta é a mensagem que vos quero deixar, num tempo de festas de verão, num tempo de aldeias e casas cheias. Pena que seja curto e novamente o povo trilhe os caminhos da diáspora.

Mas os tempos são de "mudança"! Siga a festa!

Lisboa, 5 de Agosto de 2008

Rogério Martins Simões

 

(Este texto foi escrito em 2008 e publicado na Pampilhosa da Serra)

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

19.08.16

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O SOL

José Augusto Simões

 

Sol divino, Sol divino

Lindo é vê-lo nascer

É mais um dia na vida

Deus nos dá para viver

 

Sol divino, Sol divino

Que ilumina toda a terra

Desde o mais profundo vale

Até ao mais alto da serra

 

Sol divino, Sol divino

Que nos dá tanta alegria

Acaba a noite cerrada

E irrompe o claro dia

 

Sol divino, Sol divino

Nos dá tanta beleza

É a estrela mais bela

Que nos dá a natureza:

 

Quando está ao pé do rio

Em cima de uma cascata

O fundo parece de ouro

A água da cor da prata

 

Todo o ser vivo se mexe

Quando vê nascer o Sol

Os passarinhos cantam

Trina o lindo rouxinol

 

 Rouxinol que bem cantas

Onde aprendeste a cantar?

- No cimo daquele salgueiro

Com os ramos a abanar!

 

Todas as aves cantam!

Cada qual com sua voz!

Eu já acompanhei o rio…

Da nascente até à foz

 

Estou velho! Tu és menino

Nunca irás envelhecer

Sol divino, Sol divino

Sem ti não posso viver

 

Lisboa, 25/9/2007

 

DEDICADO AO POVO DE PRAÇAIS

PAMPILHOSA DA SERRA

 

Com este poema, do meu querido e falecido pai, pretendo agradecer a todos – e foram muitos – Que me enviaram mensagens de condolências. Assim, na impossibilidade de me dirigir a cada um de vós, e por acreditar que meu pai está na luz, nada melhor que reeditar o seu poema “Sol” Divino de José Augusto Simões.

 

E a mim, seu filho, cabe-me dedicar a meu pai o meu poema: POETA ESTAIS DE PARTIDA

 

POETA! ESTAIS DE PARTIDA

 

Retomo a minha viagem,

E peço aos céus a coragem,

Para enfrentar a descida…

Parte barco numa onda:

Que o meu corpo se esconda

Do aceno na despedida.

 

Vai o barco a soluçar,

E no cais fica a chorar

Uma lágrima despida…

Mar que bem cedo se agita,

Que chama o arrais que grita:

Poeta! Estais de partida…

 

Meu barco que não comando

Diz, aos céus, por seu desmando

Que a viagem acaba ali…

E a alma vendo-me triste,

Solta o corpo que resiste,

Olha o meu barco, e sorri…

 

Praia das Bicas, Meco, 07-10-2011 20:00:42

 

Simões, Rogério, in “GOLPE DE ASA NO SEQUEIRO”,

(Chiado Editora, Lisboa, 1ª edição, 2014)

 

 

 

 

Poemas de amor e dor conteúdo da página

27.07.16

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 (Nesta fotografia meu pai, minha prima e minha mãe)

AFASTAMENTO

 

O poema de hoje, AFASTAMENTO, foi escrito em 1974 quando nem sequer imaginava que um dia teria de colocar os meus pais num lar: No lar da Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra.

Entre as preocupações que me levaram a tomar esta dura decisão, mesmo com a anuência dos meus pais, estão os seguintes factos:

1º Desde Abril de 2016 meu pai, com 94 anos de idade, deu entrada na urgência do hospital de S. José por três vezes; No dia 1 de Abril foi-lhe diagnosticado a possível existência de um tumor no pâncreas que, até à data, não se confirmou;

2º Neste período esteve internado por 3 vezes num hospital de Lisboa com um quadro clínico grave;

3º Também minha mãe, com 91 anos de idade, nesse mesmo período de tempo, deu entrada pela mesma urgência com problemas respiratórios graves, um enfarte, e na última das vez esteve em coma quase 24horas. Para minha felicidade depois de tanto a acarinhar e lhe segredar ao ouvido, acordou… - Olha o meu querido filho Rogério!

4.º Entretanto, numa reunião, foi-me entregue um documento onde constava que meu pai seria admitido numa Unidade da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Unidade de média duração e reabilitação.

Pedi para ler o que ali estava escrito e recusei assinar em nome do meu pai tendo abandonado a reunião.

Essa recusa não era mera birra, era uma questão de direitos e liberdades dos doentes descritos no próprio impresso que li, tendo chamado a atenção para que fosse meu pai a decidir.

Recordei que meu pai detém todas as suas capacidades intelectuais e que nunca foi chamado para tomar qualquer posição sobre este seu assunto.

5.º Entretanto a minha mãe ficou à espera de ser integrada numa Unidade da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Unidade de longa duração e manutenção.

6.º Depois de lhes terem dado alta hospitalar vieram para a sua casa. Doentes e acamados, os dois, regressaram a um velho prédio que nem sequer tem elevador. Para uma velha casa sem um mínimo de qualidade onde todo o apoio era insuficiente e deficiente.

 

Foi assim que meu pai regressou à terra que o viu nascer, bem perto da aldeia de minha mãe – A Malhada – Colmeal.

 

Já no Lar da Santa Casa da Pampilhosa da Serra, constatei que existe ali muita humanidade, e muita doação, independentemente da qualidade e do profissionalismo dos seus mais de 40 trabalhadores.

Meus pais foram colocados no mesmo quarto e eu estava muito feliz com isso.

Entretanto chegou ao meu conhecimento que a minha mãe seria transferida para a Unidade de Longa Duração, ali perto, colocando em risco o seu Lugar no Lar bem como a alteração de comportamento de meu pai.

 

A minha maior tristeza foi por ter cedido… à colocação da minha mãe nos cuidados de saúde continuados de longa duração – seis meses - tendo desta forma contribuído para os separar. Meus pais não queriam ficar separados, viveram mais de 69 anos juntos e só a morte os poderia afastar.

 

Vou concluir. O que passámos nestes últimos 3 meses é inarrável, dói! Dói muito.

No meu caso e por muito mais que o faça, nunca conseguirei pagar o que os meus pais fizeram por mim. Mas foram tantos aqueles a quem meus pais abriram as suas portas, e cedido a própria cama, que chega a ser triste que nem uma só visita lhes faça.

 

E eu que ouvi e vi meu pai chorar, quando pela 3ª vez os fui ver à Pampilhosa da Serra, também chorei.

 

Lisboa, 27/07/2016 02:00:01

 

 

 

AFASTAMENTO

Rogério Martins Simões

 

Separaram nossos corpos, mulher,

Na idade em que preciso de ti!

 

Cresceram os nossos filhos

Cresceram, levou-os o vento,

Agora estamos sós:

Velhos do nosso tempo.

 

Apartaram nossas vidas

Em lares da terceira idade

Vivemos a longa distância

Indiferentes, por caridade…

 

Pareço namorar-te

Agora que bem te conheço.

Tenho-te no pensamento,

Longe de ti, não te esqueço.

 

 

Separaram nossos corpos, mulher,

Espero todos os dias por ti!

 

Se ao menos viesse o dia

Da nossa partida final,

Haveria mais alegria

No nosso amor imortal.

 

Juntos na mesma terra...

Tu e eu a recordar…

Os tempos em que lá na serra

Começámos a namorar.

 

Juntaram nossos corpos, mulher,

Às alfaces verdejantes…

 

10/1974

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    MEIO HOMEM INTEIRO
    Rogério Simões
     
    Meia selha de lágrimas.
    Meio copo de água
    Meia tigela de sal
    Meio homem de mágoa.
    Meio coração destroçado
    Meia dor a sofrer.
    Meio ser enganado
    Num homem inteiro a morrer.
    11/4/1975

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