Domingo, 19 de Julho de 2020

Diáspora

DIÁSPORA

Rogério Martins Simões

 

Gosto de viajar para casa.

Regressar é um desejo de quem parte

E não quer ir.

Vou!

Já fui tantas vezes na ventura

Calcetando pedras,

Dormitando em tábuas,

Onde me perco sem contemplações,

Encalhado nos confins das terras,

Para amealhar uns tostões.

 

Tivesse asas para acompanhar o pensamento…

Que as asas só se levantam tendo penas.

Penas eu tenho!

Pena não tenho da fome e dos xailes pretos…

 

Deixei em casa corpos em metamorfose,

Silêncios e silvas,

Que crescem entre os muros e dão amoras…

Comprei a última tesoura de podar:

Tenho a barriga a dar horas

E um sonho para voltar...

 

A vinha ficou brava…

A casa fechada e a hortas são agora pasto de chamas!

- Aldeia porque me chamas filho

Se eu só tive madrasta!?

- Nação porque me pedes o voto se já nem te sei ler!?

 

Gosto de regressar, mas não posso ficar…

Falo agora esta meia língua estranha,

Porque já esqueci a minha…

Volto a percorrer as estradas

Que me afastam do que resta...

Levo uns trocos para a viagem

E, quando lá me virem,

Vai ser cá uma festa….

Vou petiscar couratos

E beber uns copos

Com os rapazes do meu tempo.

Regressarei um dia para cuidar da vinha…

Por agora durmo a sesta…

Voltarei para cumprir a promessa…

Beberei, nos corpos deixados,

Um néctar guardado

Entre fragas e pinheiros…

 

Agora tenho de ir…

Regressarei à casa nova que construí

E em cada degrau

Limparei as lágrimas definitivas

Da minha saudade.

Vou partir mas quero regressar…

 

Oh Pátria amada,

Onde se acolhem os sonhos do meu regresso:

- Porque me deixaste partir?

 

Oh Pátria amada deixa-me regressar

Ainda que só te enxergue,

No que resta,

Dos penhascos e das pedras pretas.

 

Quero todo o barro, granito e lousa.

Quero a água cristalina que emergia das fragas.

Quero depositar uma coroa de rosas

Nas campas rasas dos meus pais.

E uma coroa de espinhos nos que me obrigaram a seguir…

 

Sonhei voltar!

Não voltarei para partir…

Não voltarei a sonhar.

Vou ficar!

Tenho filhos e netos neste lugar

 

Retalha a saudade

No que resta do meu corpo!

Viajarei gavião….

Por agora recebo notícias do meu país

- Dizem que as motas todo-o-terreno

Debutaram nas silvas da minha aldeia…

 

E se a língua portuguesa

é a minha raiz profunda,

Afundo as minhas mágoas

por não poder regressar

Porque regresso escreve-se agora noutra língua.

E eu já nem sei o caminho do retorno…

 

8/03/2007

Simões, Rogério, in “GOLPE DE ASA NO SEQUEIRO”,

(Chiado Editora, Lisboa, 1ª edição, 2014)

ISBN 978 989 51 1233 3

 

 

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MEIO HOMEM INTEIRO
Rogério Simões
 
Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
11/4/1975

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